De “guerras individuais e feridas que não se fecham” se faz ‘Hum’, diz Samir Mesquita

Entre poesia e traço, palavra e matéria, Samir Mesquita construiu uma obra ímpar. Hum, publicado pela editora Quelônio, reúne diversas potencialidades da literatura em um único objeto: um livro cuja capa, feita em papel-lixa, já anuncia a experiência sensorial que o leitor encontrará ao longo das páginas.

Inspirado na menor cidade do mundo, uma vila medieval murada, feita de pedra, situada na Croácia, Hum articula múltiplas vozes, relatos fragmentados e uma linguagem de forte carga poética para refletir sobre conflitos silenciosos, guerras íntimas e feridas que insistem em não cicatrizar. Mais do que um cenário, a cidade se torna alegoria dos pequenos mundos que habitamos e das tensões que nos atravessam.

Nesta entrevista, Samir fala sobre o processo de criação do livro, a relação entre texto e imagem, o papel da materialidade na construção do sentido e a presença constante da guerra como metáfora dos embates internos. Um convite a entrar em Hum e a percorrer, com as mãos e com o olhar, os muros ásperos dessa narrativa singular.

Confira a conversa na íntegra:

Samir, pensar em como deve ser a vida na menor cidade deste mundo é algo instigante por si só, mas o que te motivou a escrever um livro sobre isso?

Escrever sobre um lugar em que nunca se esteve é, de certa forma, lançar-se no desconhecido; um convite à imaginação e a visitar partes de si que nunca foram acessadas. Hum nasceu dessa proposta, em uma oficina de escrita coordenada por Noemi Jaffe. Sempre se fala das maiores cidades do mundo; eu quis saber qual era a menor. Foi quando descobri essa cidade medieval na Croácia, chamada Hum, que, na época, tinha apenas 24 habitantes — entre eles, uma única criança. A partir daí, comecei a imaginar como essa pequenina cidade poderia ser uma alegoria para nossos pequenos mundos.

E como foi esse processo de criação, você pesquisou sobre a vivência daqueles habitantes?

Mais do que a vivência dos habitantes, o que me interessou desde o início da pesquisa foram os aspectos físicos de Hum: uma cidade minúscula, murada, inteiramente feita de pedra. Detalhes como as inscrições no portão de entrada, o relógio da torre e a igreja fechada. Cada elemento que eu descobria ia se incorporando à história, compondo meu imaginário e ditando a dinâmica dos personagens.

O livro brinca com a linguagem verbal e não-verbal, exigindo que o leitor se atente não somente à ideia, mas também ao próprio material do livro. Fale um pouco sobre o projeto gráfico do livro que vai da capa impressa em lixa às ilustrações do miolo. 

A pedra é um elemento central na construção da cidade e no enredo de Hum. Por isso, quis trazê-la também para o projeto gráfico e tentar fazer do livro, enquanto objeto, uma experiência sensorial. A capa, impressa em papel-lixa, representa os muros de pedra; ao abri-la, o leitor adentra a cidade. As ilustrações também foram feitas usando pedras como pincéis, para que os traços e as texturas dos desenhos dialogassem com o texto. Assim, a aspereza da pedra acompanha o leitor por todo o livro: no que lê, no que vê e no que sente nas mãos.

Como foi o processo de composição entre texto e imagem? Foi algo feito simultaneamente ou algum deles teve prioridade?

O texto veio 13 anos antes. Quando voltei a ele, em 2024, mais do que reescrevê-lo, tive vontade de reimaginá-lo. Foi então que me lancei ao desafio de produzir imagens que não apenas representassem o texto, mas que dialogassem com ele, buscando trazer uma nova camada de significados e sentidos para a história.

Leia também: Em Hum, de Samir Mesquita, texto e imagem traçam vidas na menor cidade do mundo

A presença quase silenciosa e observadora da guerra não abandona a narrativa em momento algum, ela fica à espreita em todos os relatos. Por que esse elemento é tão importante para a sua narrativa? Quais sentidos isso contém para você?

A guerra está sempre à nossa espreita, infelizmente, como se vê no momento em que vivemos. Às vezes silenciosa, às vezes ruidosa, muito de acordo com os interesses envolvidos. Mas há outra forma de conflito que também nos espreita constantemente: os conflitos internos, contra os quais lutamos e com os quais raramente chegamos a um acordo de paz. Hum fala muito sobre essas guerras individuais e sobre suas feridas que não se fecham.

A escolha de transmitir a narrativa trágica através de relatos que se complementam e às vezes se repetem foi muito interessante. O que te inspirou a compor a história assim? Conte mais sobre esse processo de escolha de voz narrativa. 

Lembro-me apenas de diferentes vozes vindo à minha cabeça enquanto eu escrevia. Vozes que se sobrepunham, se contradiziam, se completavam. A escolha de uma estrutura composta por essas diferentes vozes, em forma de relatos, foi, então, uma maneira de dar conta dessa polifonia que me invadia — e de permitir que a história se revelasse tanto para mim, como escritor, quanto para o leitor.

Ainda sobre isso, o livro possui uma linguagem poética inegável. Qual sua relação com a poesia ou com a narrativa poética e porque escolher esse meio para contar a narrativa de Hum?

A poesia é parte importante da minha relação com a literatura, desde as primeiras leituras até hoje. Admiro, na poesia, a capacidade de despertar imagens em nossas mentes, de nos fazer ver aquilo para o qual muitas vezes nos tornamos cegos, de dizer, por meio dos silêncios, mais do que com as próprias palavras.Acredito que cada história pede uma linguagem própria. No caso de Hum, sua forma veio por meio de uma linguagem poética, mas, sobretudo, simples e áspera, quase cortante.

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