“A Voz de Hind Rajab”(2025) retrata um dos episódios mais dolorosos do genocidio palestino.

A Voz de Hind Rajab faz questão que o espectador saiba que a história a ser narrada se trata de algo que de fato aconteceu. Não só há um letreiro logo no início sinalizando de que se trata de uma dramatização, como a veracidade das gravações de áudio que conduzem a trama é reforçada tão logo elas aparecem: “As vozes do telefone são reais”. Do lado superior direito da tela, podemos até ver o nome do arquivo. Não se trata de uma atriz interpretando Hind Rajab, mas a própria, em seus últimos momentos de vida.

O apego à realidade pode ser um tanto insistente, mas é um ato lógico diante do profundo apagamento sofrido pelos palestinos pelas mãos de Israel. Mesmo diante de um genocídio altamente visível, como o atualmente perpetrado por Israel, ainda há aqueles que negam ou minimizam o fato, fruto de um extenso trabalho de epistemicídio que visa apagar a existência da Palestina da história. 

E das diversas crueldades que transcorrem na Palestina, a história de Hind Rajab talvez seja uma das mais doloridas, uma das mais absurdas, que desafiam a crença e a que mais condena a existência de Israel. Hind era uma criança de 5 anos que, em janeiro de 2024, foi morta junto com outros seis familiares por forças israelenses, quando tentavam fugir de Gaza.

No entanto, antes de morrer, Hind ficou três horas no telefone com os atendentes  da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino, braço palestino do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, que realizam resgates na faixa de Gaza. São essas três horas o cerne de A Voz de Hind Rajab.

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As falas de Hind são gravações reais do dia da sua morte, enquanto os atores interpretam os atendentes envolvidos na operação. A narrativa nunca sairá do escritório da organização e acompanhamos o profundo desamparo dos profissionais que, por si só, nada podem fazer: eles dependem da cooperação de outras organizações para realizarem o resgate.

A Voz de Hind Rajab é, acima de tudo, um filme de denúncia dos atos de Israel. Todo seu aspecto formal é voltado para elicitar reações imediatas em quem vê. Os closes nos rostos chorosos dos atendentes que tentam a todo custo acalmar Hind e encontrar uma solução, a baixa profundidade de campo que dão todo destaque às expressões de dor e cansaço da situação, além de reforçar a imobilidade da situação, quando há movimento, é frenético, invocando o desespero e revolta dos envolvidos. Sensações imediatas para uma situação imediata. 

Mas, acima de tudo, há a voz de Hind, utilizada com a permissão da mãe da criança. Alguns colegas críticos levantaram objeções ao uso dos arquivos de áudio, com Hind “morrendo” uma segunda vez, e a insistência da diretora Kaouther Ben Hania em comprovar a realidade da situação – ela chega a resgatar gravações de celulares feitas no dia para mostrar os atores na mesma posição que os atendentes reais – e entendo essas questões. Não vou negar o desconforto em ver uma situação tão obscena se tornar um drama que busca sensações fáceis por meio de dispositivos óbvios.

Contudo, diante de um contexto onde o genocidio palestino é relativizado e minimizado, há força em insistir que essa tragédia aconteceu, e aconteceu da maneira que está sendo mostrada. Talvez seja mais importante que a voz de Hind ecoe da maneira que for possível, ainda que isso implique atravessar zonas éticas incômodas.

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