“Os camponeses das Astúrias acreditam que em toda ninhada de lobos, nasce um cachorro. Sua mãe sempre o mata. Pois, se não for morto, ao crescer, ele vai devorar os outros lobinhos. Dê a esse cachorro filho de loba um rosto humano, e o resultado será Javert.”
Em “Os Miseráveis”, Victor Hugo conta (ou inventa) um conto de fadas sobre um cachorro filho de lobos, que precisa ser morto por sua mãe para que, no futuro, não se torne um cão de caça que, instrumentalizado pelo homem, matará seus irmãos. A história surge como introdução ao personagem de Javert. Filho de dois criminosos – seu pai tinha sido condenado ao trabalho forçado nas galés e sua mãe estava presa quando ele nasceu –, Javert se torna um inclemente homem da lei; o inspetor é inflexível, e sua visão de justiça se baseia completamente na letra da lei, sem qualquer espaço para interpretação ou humanidade. Javert é implacável em sua luta contra criminosos, que ele considera a escória da terra, independentemente do crime cometido ou da razão por trás dele.
Javert, em suma, é o cachorro filho de lobos da história folclórica de Hugo – o cachorro domesticado, convertido em cão de caça, servindo seus mestres humanos, devorando os lobos selvagens, seus irmãos. Javert é, enfim, o que muitos chamariam de “um traidor de sua classe”.
A metáfora é interessante pela utilização histórica do lobo como símbolo, apelido, aproximação ou alegoria para criminosos. Na Roma antiga, “loba” era uma gíria para prostituta. Mais tarde, e ao longo de boa parte da história, o lobo foi usado na literatura para indicar uma natureza criminosa – famosamente, o “ladrão de casaca” Arsene Lupin, cujo nome é uma alusão óbvia, se tornaria um dos exemplos mais célebres dessa tendência, embora Lupin tenha nascido muito após Os Miseráveis, em 1905.
No livro de Hugo, especificamente, o lobo surge com frequência como de alguma forma adjacente ao criminoso, ao proscrito, ao indesejável, à figura socialmente oprimida e tratada como um monstro. Éponine, a trágica filha adolescente dos repugnantes Thénardier – e com quem Javert divide inúmeros paralelos – é outra personagem identificada como um cachorro numa família de lobos: “Não sou filha de um cachorro, pois sou filha de lobos. […] Se se aproximarem, vou latir. Eu já lhes disse, eu sou o cachorro, e não me importo com vocês.” Ela cospe após ser chamada de cadela. O próprio Jean Valjean é frequentemente comparado ao lobo.
Essa aproximação entre Valjean e Javert é fundamental para a história de Hugo exatamente por enfatizar dois caminhos distintos tomados por duas figuras extremamente parecidas. Javert nasceu na mesma miséria abjeta, estigmatizante e traumática que outros personagens em Os Miseráveis – Valjean, Éponine, Fantine, Cosette. Javert, exatamente como Valjean, cresceu em um contexto que automaticamente o criminaliza. Mas, ao contrário de Valjean, Javert vira as costas para seus “irmãos lobos” – outras pessoas igualmente empobrecidas, estigmatizadas, traumatizadas, criminalizadas – e, numa tentativa de escapar de suas próprias circunstâncias, de se elevar acima da miséria de onde veio, se torna um policial do baixo escalão obcecado pela manutenção da lei e da ordem, da maneira mais literal, radical e tacanha possível. Javert domestica a si mesmo.
Victor Hugo explica o passado de Javert da seguinte maneira:
“Javert tinha nascido numa cadeia, filho de uma cartomante cujo marido estava nas galés. Enquanto crescia, ele se achava à margem da sociedade e perdeu a esperança de um dia poder adentrá-la. Ele observou que a sociedade impiedosamente exclui duas classes de homens – aqueles que a atacam e aqueles que a guardam; ele não tinha escolha além dessas duas classes; ao mesmo tempo, era consciente de uma indescritível base de rigidez, regularidade e probidade, complicada por um inexpressável ódio pela raça de boêmios da qual tinha brotado. Ele entrou na polícia; teve sucesso lá. Aos quarenta anos, era inspetor.”
Para se “limpar” de suas origens, Javert assume seu papel como defensor e perpetrador do mesmo sistema que aprisionou sua família e criou o estigma do qual ele deseja se livrar. Ele vigorosa e inflexivelmente defende uma hierarquia social onde ele é parte do mais baixo estrato. Ele serve a uma autoridade que o vê como sub-humano, e defende seus princípios com muito mais determinação do que esses princípios o defenderiam. Javert protege uma estrutura que nunca o aceitará como mais do que um lacaio: ele é tolerado por essa sociedade por ser uma figura útil que caça lobos, um cão de caça protegendo seu mestre.
Javert não pensa em nada, não sente nada que não seja lealdade à mais pura e por vezes obtusa leitura da lei – exatamente como um cachorro seguindo comandos. Ele prenderia a própria família sem pensar duas vezes com isso em mente. Ele condenaria a si mesmo sentindo nada além do prazer que obtém da obediência, da lealdade, do cumprimento do dever. Na verdade, vemos isso muito claramente pelo menos em duas ocasiões: quando Javert acredita ter acusado injustamente o Sr. Madeleine de ser um fugitivo da lei, Javert imediatamente pede não apenas para ser exonerado, mas também para ser punido, e insiste nisso mesmo depois de Madeleine dizer várias vezes que o erro foi honesto, e que não quer punir Javert. São necessárias páginas e páginas para que Javert, muito a contragosto, aceite “escapar sem punição”, e somente quando isso vem na forma de uma ordem de seu superior. Mais tarde – em seu fim último – Javert não consegue lidar com a ideia de ter deixado Jean Valjean escapar e, não vendo outra maneira de punição possível, tira a própria vida. Tragicamente, essa é uma das principais características redentoras de Javert: ele não é hipócrita, não trabalha com dois pesos e duas medidas. Sua lealdade à autoridade é tão genuína que chega a ser doentia. Ele é tão carrasco de si mesmo quanto é de qualquer outro.
Victor Hugo enfatiza a natureza canina de Javert com imensa frequência: para Hugo, as costeletas do inspetor são pelos, suas mãos são descritas como garras e quando ele fala, rosna e late. O sorriso de Javert “exibe não somente seus dentes, mas também suas gengivas, e ao redor do nariz forma-se uma dobra feroz e terrível, como a carranca de uma fera selvagem”. O escritor não perde uma única oportunidade para fazer a comparação: sempre que Javert pode se parecer com um cachorro, ele se parece; sempre que pode agir como um, ele age.
Mesmo seus métodos e sua função em Os Miseráveis são as de um cão de caça. Em certa ocasião, Valjean reflete: “Aquele Javert, que vinha me perturbando por tanto tempo; aquele terrível instinto que parecia ter me descoberto, que tinha me descoberto – bom Deus! E que me seguia para todos os lados; aquele aterrorizante cão de caça, sempre mirando em mim, perdeu o faro, está focado em outra coisa, totalmente fora do rastro”. Famosamente incapaz de pensar em linha reta, Hugo escreve capítulos inteiros sobre como Javert caça criminosos como cães caçam suas presas: um deles, inclusive, tem como título “Como Javert o farejou”.
A insistência de Hugo na comparação é sinal, exatamente, do quão importante esse aspecto da personalidade de Javert é para a compreensão do personagem, de seu papel na narrativa, de suas interações com membros de sua própria classe, e com o próprio cerne da história de “Os Miseráveis”.
Afinal, no livro de Hugo, Javert não é singularmente obcecado por Jean Valjean. A noção do inspetor vingativo que passa a vida perseguindo esse único criminoso foi largamente inventada por adaptações posteriores, em parte para personalizar a questão e se esquivar da crítica sistêmica das forças de segurança que Hugo propõe. O Javert do material original volta à sua perseguição de Valjean inúmeras vezes ao longo dos anos muito mais por coincidências do que por um esforço intencional – ele persegue esse fugitivo quando sente que ele se aproxima. Não há pessoalidade nessa relação. Valjean mal configura uma pessoa na visão do policial – ele é uma presa, uma presa particularmente difícil, e é isso. Ao longo do tempo, essa dificuldade se transforma em frustração, e a habilidade de Jean Valjean de desaparecer e evadir a lei o torna mais e mais irritante para Javert, mas, sobretudo no início, Valjean não passa de mais um entre centenas para nosso antagonista. Em determinado momento, Hugo escreve: “[Javert] não pensava mais em Jean Valjean, – o lobo de hoje faz com que esses cachorros que estão sempre caçando esqueçam do lobo de ontem.”
Quando Valjean eventualmente salva a vida de Javert, os sentimentos que se instalam – os sentimentos que levam Javert a libertar Valjean após finalmente pegá-lo, causando um conflito mental tão intenso que o inspetor acaba por cometer suicídio – são descritos largamente com metáforas de cães e lobos. Quando finalmente captura Jean Valjean, ele “se sentiu como o lobo que achou sua presa, mas também como o cachorro que reencontrou seu mestre” – note, aqui, que de maneira sutil o papel do policial capturando Jean Valjean foi comparado ao lobo, isto é, ao criminoso; na captura está o crime, o agente da lei é o malfeitor.
Mais tarde, ao permitir que Jean Valjean escape, Javert se horroriza com sua traição a seus princípios, pensando no horror de “ser o cão de guarda e lamber as mãos do intruso!”. Ele “estava tentado a se jogar sobre Jean Valjean, agarrá-lo e devorá-lo – isto é, prendê-lo.” A captura do criminoso, na concepção de Javert, se iguala à caça. Mas, apesar da tentação, ele é incapaz de prender o homem a quem agora deve sua vida. Ele tenta se convencer várias vezes a fazê-lo, mas não consegue. Uma voz, ele diz, fala em sua cabeça: “Está tudo bem. Liberte seu salvador. Então traga diante de si a bacia de Pôncio Pilatos e lave suas garras.”
É isso que Javert faz. E então, tão incapaz de lidar com a escolha de salvar o ladrão quanto seria incapaz de lidar com a de prender o mártir, Javert se atira de uma ponte. Pois “ao lado de Jean Valjean glorificado, ele encarou a si mesmo, Javert, degradado”. Há tantas camadas nessa colocação. De maneira mais óbvia, ela pode ser compreendida como “Javert se imagina degradado por ter sido salvo por alguém que ele despreza”, “Javert detesta ter deixado ir um criminoso impune”, ou mesmo “Javert despreza a si mesmo por arrepender-se da forma como tratou esse homem que se provou tão bom”.
Do ponto de vista do cachorro e do lobo, entretanto, há ainda outra forma de olhar para esse pensamento na beira do abismo: Jean Valjean e Javert saíram do mesmo lugar. Vieram da mesma situação de miséria e desespero. Fizeram escolhas diferentes – Jean Valjean se tornou o protetor dos oprimidos; Javert se alinhou como pôde aos opressores, na esperança de receber em troca algum resquício de respeito, aceitação, acesso. E, ao fim, o homem justo, o homem bom, foi o fugitivo capaz de sacrificar-se por seu perseguidor, tão miserável quanto ele, tão vítima do sistema quanto ele, mas cego o suficiente para se achar superior ao seu igual em matéria de sofrimento.
Valjean glorificado, Javert degradado. Lobo e cão.