“Blasted”, texto de Sarah Kane, continua impactante ao retratar o que a sociedade civilizada, tão cheia de si, finge não ver

Em 1995, a primeira encenação de “Blasted” foi sepultada pela crítica de imediato. A violência, a crueldade e dureza do texto de Sarah Kane espelhavam aquilo que a sociedade civilizada, tão cheia de si, negava existir. “A violência em minha obra é repulsiva porque eu a apresento sem atrativos“, teria dito Kane à época. 

Trinta anos depois daquela noite no Royal Court Theatre Upstairs, em Londres, o diretor brasileiro José Fernando Peixoto de Azevedo tirou o texto de Kane dos escombros. Na sua versão de “Blasted”, que está em cartaz no Teatro Manás Laboratório, em São Paulo, o encontro do jornalista Ian (Lucas Rosário) com a jovem Cate (Juliane Arguello) em um quarto de hotel dispara uma noite marcada por estupros, ofensas racistas, dor e repulsa. Michel Joaquim interpreta o Soldado que, em determinado momento, invade o quarto e desloca a dinâmica de poder: Ian passa de agressor a vítima.

Mesmo depois de tantos anos, o horror descrito no texto de Kane não foi superado. Só que Ian diz — suas ofensas, desejos e opiniões hoje facilmente ‘canceláveis’ — agora encontra eco em situações corriqueiras. Ian parece um personagem mais comum do que absurdo. Então, para onde ir? Este é o primeiro grande feito da montagem guiada por José Fernando Peixoto de Azevedo: em vez de sucumbir à banalização da violência em cena, o diretor a encara como uma fonte inesgotável. 

Foto Bruno Schuaber

Nesse sentido, o bom trabalho de Samurai Cria como câmera-man, Gustavo Calbo na edição das imagens ao vivo e Agá Péricles na direção e execução da trilha sonora sustentam-se como elementos dramatúrgicos indissociáveis desse terror, assumindo-se como “personagens” colaterais da trama. 

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Isso porque as câmeras, telões e outros dispositivos cinematográficos fazem parte dos trabalhos desenvolvidos pelo diretor. Mas em “Blasted” esse horror filmado alcança sua forma mais crua. Vamos apenas observar – e fetichizar – a podridão, ou postar nossa indignação a respeito dos fatos e seguir adiante? A presença das câmeras e das telas distende o espectador para além da peça, principalmente porque, em uma inversão de alta voltagem, o diretor coloca um artista negro para interpretar o protagonista. 

A meu ver, essa inflexão no personagem de “Blasted” coloca a montagem em órbita com “Navalha na carne negra”, outro trabalho de José Fernando, aferindo situações-limites pela ótica da violência racista. 

Mas agora que um personagem branco está sendo interpretado por um homem negro, o julgamento do público a respeito da conduta de Ian sofre que tipo de alteração? Essa fúria, a raiva e a má conduta do personagem não podem ser o resultado de uma ruína social antecessora à noite no quarto? Com a entrada do Soldado em cena, quando Ian passa de opressor a um oprimido, as engrenagens desse sistema dominante são expostas com mais força. Naquele cativeiro, Ian, o negro, será visto e tratado como “estrangeiro”: se não há lugar seguro, a ruína tem de ser permanente porque a ordem se alimenta do caos.

Foto Bruno Schuaber

A entropia criada pela Sociedade Arminda impõe cenas difíceis de assistir – como o final, quando um bebê é inserido na história. O jogo de câmera da cena, inclusive, aproxima a encenação de “Trainspotting – Sem Limites” (1996), do britânico Danny Boyle, e assim como no filme, a peça também mostra um destino trágico…

À época de sua estreia, Sarah Kane protestou em virtude do estupro e assassinato de uma adolescente ter atraído menos atenção da imprensa do que seu texto. 

Agora, em tempos de guerras negociadas, de assassinatos transformados em conteúdo para a sinalização pública de virtude; em tempos em que o horror é impulsionado, em que a polarização ganha status quo, em que a violência se espalha como um incêndio, mas os 120 corpos negros estirados numa rua do Rio após uma operação da Polícia Militar nos complexos da Penha e do Alemão não significam nada além de uma imagem no feed… nesses tempos de fakenews, “Blasted” é teatro “sem atrativos”. 

Talvez, seja por isso que ainda choca. 

FICHA TÉCNICA

Dispositivo de cena e direção geral: José Fernando Peixoto de Azevedo

Texto: Sarah Kane

Tradução: Laerte Mello

Elenco: Juliane Arguello, Lucas Rosário e Michel Joaquim

Câmera em cena: Samurai Cria

Edição de imagens ao vivo: Gustavo Calbo

Assistência de direção: Fabricio Rodrigues e Michel Joaquim

Direção musical e música em cena: Agá Péricles

Direção de arte: Iara Salomão

Assistência de direção de arte: Eliza Portas e Marcela Georgini

Desenho de luz: Denilson Marques

Cenotecnia: Zito Rodrigues e Nilton Ruiz

Projeto gráfico: Gustavo Calbo

Estágio (direção): Lucca Strabelli

Parceria: Teatroiquè

Produção executiva: Sociedade Arminda

Produção: Corpo Rastreado

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