Ler Nostalgia, de Mircea Cărtărescu, é aceitar um convite ao território instável da memória. O escritor romeno, que teve algumas de suas obras traduzidas para o português, constrói neste livro um conjunto de narrativas que, à primeira vista, parecem independentes: O roletista, Mendébil, Gêmeos, R.E.M. e O arquiteto. Não há um fio narrativo evidente que as una desde o início, e talvez essa ausência seja parte essencial da experiência.
No começo da leitura, somos lançados em histórias que se apresentam como fragmentos: personagens distintos, episódios isolados, atmosferas que parecem não dialogar entre si. No entanto, à medida que avançamos, algo começa a se insinuar. Pequenos elos surgem quase à revelia do leitor: um personagem que atravessa outra narrativa, um gesto que se repete, um espaço que retorna. São encontros breves, discretos, mas suficientes para produzir a sensação de que tudo pertence a um mesmo universo pulsante, como se as histórias se observassem à distância.
Essa unidade difusa é reforçada pela recorrência dos lugares, que funcionam menos como cenários fixos e mais como espaços da lembrança. Nada ali parece totalmente estável ou concreto: tudo é filtrado pela memória, pelo sonho, pela imaginação.
Como o título sugere, a nostalgia é o centro gravitacional da obra. Mas não se trata de uma nostalgia simples ou reconfortante. As lembranças da infância, das brincadeiras, das amizades e dos primeiros amores aparecem carregadas de uma melancolia peculiar, como se fossem atravessadas pela consciência tardia de sua perda. O passado, em Nostalgia, não é apenas aquilo que foi, mas aquilo que continua a nos assombrar.
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Inicialmente, as histórias parecem tratar de experiências comuns, quase banais. No entanto, Cărtărescu introduz, pouco a pouco, elementos de realismo mágico que deslocam a narrativa do terreno do cotidiano para um espaço inquietante, onde o estranho irrompe sem aviso. O que era familiar torna-se perturbador; o que parecia inocente revela um fundo obscuro e vertiginoso.
Há, assim, uma forma muito particular de nostalgia que atravessa o livro: um sentimento que nasce da inocência de quem ainda desconhece o futuro. Essa ignorância, longe de ser uma falta, é apresentada como um estado precioso e irrecuperável. Talvez seja justamente isso que torna a nostalgia de Cărtărescu tão intensa: ela não lamenta apenas o que passou, mas a impossibilidade de voltar a ser alguém que ainda não sabia o que estava por vir.