“Rifqa”: poesia de Mohammed El-Kurd homenageia sua vó centenária para celebrar resistência palestina contra o colonialismo

Nascido em Jerusalém em 1998, no 50º aniversário da Nakba, Mohammed El-Kurd é poeta, ativista e jornalista. Sua escrita une lirismo e contundência política, transformando a poesia em uma ferramenta de denúncia contra o colonialismo. Em 2021, El-Kurd foi nomeado uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time.

Por que Rifqa?

Rifqa é a obra de estreia do autor, uma coletânea de poemas que mobiliza o verso para expor o trauma da expulsão forçada e a realidade da ocupação. O cerne deste manifesto lírico é sua avó, Rifqa El-Kurd, uma mulher centenária que sobreviveu a expulsões sucessivas e tornou-se o símbolo da resiliência palestina.

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Sobre a escrita de El-Kurd

A escrita de El-Kurd é deliberadamente fragmentada e visceral, recusando o vocabulário “não enviesado” que suaviza a ocupação. Para o autor, a poesia é o ato de “plantar uma bomba no jardim”, um disfarce para verdades que o Ocidente muitas vezes prefere ignorar.

El-Kurd traça paralelos poderosos entre a violência em Jerusalém e a repressão policial em periferias do Sul Global, evocando pensadores como Frantz Fanon, Audre Lorde e Aimé Césaire. Em Rifqa, o jovem poeta já anuncia os temas que vai desenvolver quatro anos depois em Vítimas perfeitas e a política do apelo (Tabla, 2025).

O papel do bairro de Cheikh Jarrah

O bairro de Cheikh Jarrah aparece como um “microcosmo do colonialismo de assentamento”, um espaço onde se manifestam de forma nítida as políticas de limpeza étnica, apartheid e expropriação sistemática. Em sua narrativa pessoal, Cheikh Jarrah representa a materialidade da ocupação: foi ali que sua família viveu a experiência traumática de ter metade da casa invadida e ocupada por colonos, em 2009.

O bairro simboliza a continuidade da Nakba, conectando o deslocamento original de sua avó em Haifa, em 1948, à luta atual contra as ordens de despejo emitidas por tribunais israelenses. Ao transformar a memória familiar em gesto poético e a linguagem em campo de enfrentamento, Rifqa afirma Mohammed El-Kurd como uma das vozes mais contundentes da poesia contemporânea palestina.

Sobre o autor:

Mohammed El-Kurd é poeta, escritor e jornalista, nascido em Jerusalém, Palestina ocupada. Ganhou projeção internacional ao denunciar as tentativas de expulsão de sua família no bairro de Cheikh Jarrah, tornando-se uma das vozes centrais do movimento SaveSheikhJarrah. Atualmente vive em Nova York e atua como o primeiro correspondente palestino do jornal The Nation.

Sobre o tradutor:

Gabriel Semerene nasceu em Brasília, em 1987. É mestre em Ciência Política pela Sciences Po Aix e em Literatura Árabe pela Sorbonne. Sua trajetória acadêmica concentra-se no estudo de movimentos sociais de minorias sexuais e de gênero no Líbano e na Palestina.

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