Novo livro de poemas do escritor fluminense Giovani Miguez, poéticas do cuidado das brevidades e das suturas é uma obra que trabalha temas densos e psicológicos – como feridas emocionais e o papel ético e estético da poesia – em textos concisos que se destacam pela leveza das imagens.
Trata-se de um exercício de superação por meio da linguagem, se distanciando de gêneros como a auto-ajuda por focar na construção poética e no uso das palavras. Aqui, cada poema é tratado como uma estrutura que consegue organizar e dar significado à existência.
A composição dessa estrutura parte, primordialmente, do observar, o que pode ser visto na ordenação da obra. poéticas do cuidado das brevidades e das suturas é dividido em três partes: “Das Brevidades”, que se volta para a captura de imagens e lembranças daquilo que é simples e cotidiano; “Do Cuidado”, que trata a poesia como um campo de articulação afetiva; e, por fim, “Das Suturas”, que se volta para a elaboração psicológica. Logo, o livro se inicia com um exercício de olhar para o externo e para o cotidiano; na segunda seção, esse olhar se dirige ao outro até, por fim, se direcionar a si próprio.
“Das Brevidades” se inicia com uma epígrafe do próprio autor, que diz “o verso se dissolve no outro, / e o poema, em sua brevidade, / se torna espelho.” (p. 18). Este trecho sugere um diálogo entre o poeta e o espaço ou acontecimento externo, ou seja, ele está participando das situações e, mais do que isso, ele se enxerga nelas. Isto é nítido no poema “Remanso” (p. 42):
“a rua, agora calma, grita.
este silêncio da madrugada, confesso, me irrita,
mas preciso desta desplugada
do barulho ensurdecedor
que me leva ao remanso solitário, ao torpor,
onde encontro o necessário abraço do vento leve
que em um soprar breve
me faz acomodar
no sonhar.”
Este texto remete à vivência urbana em seu âmago, o que se verifica não através da descrição de uma rua pavimentada, mas, pelo contrário, a partir do estranhamento do eu-lírico diante do silêncio desta mesma rua durante a madrugada (“confesso, me irrita”), que se incomoda com o rompimento do ritmo ao qual ele está acostumado ao mesmo tempo em que encontra refúgio na situação (“que em um soprar breve / me faz acomodar / no sonhar.”)
No poema, observa-se também que as imagens que aparecem são relativas ao universo interno do eu-lírico – caso de “que me leva ao remanso solitário, ao torpor, / onde encontro o necessário abraço do vento leve / que em um soprar breve me faz acomodar no sonhar.” – que não são aquilo que ele vê, mas uma resposta àquilo que ele vê.
Em “Do Cuidado”, o foco do eu-lírico com o externo é ainda mais forte, não se restringindo apenas à imaginação ou a uma emoção particular com uma experiência, mas propondo um convite para formar novos vínculos, pensando no cuidado com o outro. Aqui, Miguez assume uma voz mais reflexiva e filosófica, que praticamente elabora um tratado acerca da poesia como partilha e comunhão. Um exemplo é o poema “Pencas Poéticas” (p. 97):
“a poesia não cura,
mas ela sutura,
cuida.
mesmo quando não se espera,
o milagre que ela opera
estabelece a estrutura da vida.
ela nasce da metafísica
que do mundo das ideias
despenca, constituindo aldeias,
estabelecendo relações místicas,
na realidade dos poemas
que surgem em pencas metafóricas.”
Aqui, o tom é mais ensaístico, e o poeta assume uma voz menos pautada em uma projeção imersa em sua própria subjetividade (como em “remanso”), utilizando as imagens como ferramenta para dar corpo a uma ideia inicialmente abstrata, que veio do mundo das ideias, e que posteriormente despenca e constrói aldeias.
Nesse sentido, podemos pensar em “Pencas Poéticas” como exemplo do que Miguez propõe em sua poesia, que é a utilização da palavra como uma construção que fornece estrutura para lidar com a realidade, seja ela banal, seja ela dolorosa. Aqui, o poema permite não apenas dar ordem e materialidade a uma experiência subjetiva, sendo também uma ferramenta de enfrentamento ético e estético da realidade.
Essa noção de enfrentamento ético e estético é particularmente importante em “Das Suturas”, em que o poeta estabelece um diálogo consigo mesmo. Neste momento, os textos reescrevem um sofrimento primordial, que referencia, em muitas ocasiões, a versão infantil do eu-lírico. Este é o caso do poema “Profecia” (p. 207):
“um livro empoeirado, esquecido,
um menino curioso, perdido.um poeta, um futuro.
um poema por ser escrito.”
Neste poema, o menino “curioso, perdido” encontra, na escrita poética, um senso de esperança (“um poeta, um futuro. / um poema por ser escrito.”). Desta forma, Miguez reforça o papel da poesia – de enfrentamento – no que diz respeito à temática e à forma (isto é, pela escolha do poema, principalmente no que diz respeito à construção estética das imagens e ritmo).
Por fim, podemos dizer que o poéticas do cuidado das brevidades e das suturas, de Giovani Miguez, é um livro de poemas com um quê de manifesto, propondo o exercício poético como uma maneira de observar e de compor a realidade. Não há falsas promessas de “cura” ou “libertação” – e Miguez deixa isso bem claro – porém a apresentação da poesia como uma maneira mais profunda e menos dolorosa de lidar com o mundo.
Sobre o autor:
Giovani Miguez é poeta e escritor, autor de mais de 20 livros e plaquetes. Às vezes arrisca crônicas, contos e outras prosas. É servidor público, graduado em Gestão Pública com extensão em Jornalismo de Políticas Públicas, especialista em Sociologia e Psicanálise, mestre e doutor e Ciência da Informação. Além da poesia, pesquisa sobre Informação e Saúde, Cuidado, Trabalho em Saúde e Políticas Públicas. Nascido em Volta Redonda (RJ), hoje reside na cidade do Rio de Janeiro. Na sua poesia, explora a expressão e reflexão humanista e existencial. Ora lírico, ora político, ora científico, mas sempre est(ético), o poeta segue sendo profundo em suas generalidades.