Juntos e novos filmes de body horror convencem ou apenas tentam repetir o fenômeno de A Substância?

A indústria cinematográfica tenta repetir com precisão seus fenômenos de maior sucesso. Depois de “Barbenheimer”, isso ficou mais explícito.

Em 2023, o lançamento de dois filmes completamente diferentes para públicos totalmente opostos, Barbie e Oppenheimer, além de um sucesso de bilheteria, foi um acontecimento histórico na cultura pop. Em novembro de 2024, outros dois filmes tentaram promover algo parecido: o musical Wicked e o épico Gladiador 2 estrearam no mesmo dia e criaram o evento “Glicked”.

Fora do eixo das megaproduções, A Substância (2024) gerou um fenômeno interessante que conquistou prestígio, inclusive da Academia, para o gênero de body horror e foi sucesso de público mesmo sendo um filme experimental. Se há uma fórmula para esse caso, ela parece ter sido aplicada novamente em Juntos (2025).

Em A Substância, a diretora francesa Coralie Fargeat usou um terror corporal grotesco para dar visibilidade aos efeitos perversos da indústria do entretenimento sobre as mulheres, com seus padrões de beleza inatingíveis e seu desejo ilusório de juventude. 

Expandindo ao absurdo, o longa é visceral em ilustrar como isso impacta a realidade feminina, sobretudo, por ter a protagonista interpretada por Demi Moore. Além da performance, a atriz enriqueceu a personagem com a história da sua própria carreira em Hollywood, marcada pela exploração sensual da sua imagem e pelos seus próprios excessos em procedimentos estéticos.

Assim como o filme de Fargeat usou esses elementos para ser o grande body horror de 2024, Juntos, de Michael Shanks, explora alguns dos mesmos recursos para ser o principal lançamento do subgênero em 2025. No título mais recente, entretanto, o horror se manifesta a partir de um relacionamento amoroso de longa data, em que uma professora iniciando em um novo emprego e um músico frustrado precisam lidar com os silêncios e as inconveniências de serem um casal por tanto tempo.

Além de recursos estéticos bem semelhantes, especialmente na principal cena de terror do filme (você vai se surpreender com a semelhança), Juntos também traz um elenco que adiciona aspectos da vida real à narrativa: Alison Brie e Dave Franco, que interpretam o casal, são casados na vida real há 8 anos e estão juntos há mais de uma década.

Alison Brie e Dave Franco em Juntos (2025)

Seriam os filmes, incluindo Juntos, que vieram na crescente de prestígio do horror corporal, apenas tentativas de reproduzir o sucesso de A Substância? Certamente, não. A seguir ao reconhecimento que o subgênero ganhou da crítica e das grandes premiações, os cineastas tiveram uma espécie de validação para usar suas metáforas onde elas melhor funcionam: nas obsessões da vida social e privada.

Dos clássicos aos mais recentes, é interessante notar como o universo do body horror abriga muito bem a obsessão humana, porque literalmente a incorpora. Os títulos mais marcantes da categoria apresentam tramas em que algum personagem passa por uma transformação grotesca em razão de um objeto obsessivamente desejado. 

No clássico, A Mosca (1986), de David Cronenberg, a obsessão pela evolução da ciência leva o protagonista a uma metamorfose grotesca. No já citado A Substância (2024), o desejo pela juventude e pelos padrões de beleza leva à degradação violenta do corpo feminino. Assim acontece também no norueguês The Ugly Stepsister (2025), que mostra as deformidades a que as mulheres se submetem desde há muito tempo para superar o olhar cruel da sociedade. Cisne Negro (2010), de Darren Aronofsky, aflige o público ao retratar a autodestruição em busca da perfeição artística. 

Em 2016, a cineasta francesa Julia Ducornau fala da obsessão a partir do desejo reprimido, transformando a fome física em uma aterradora metáfora jamais esquecida por quem viu Raw. Mais tarde, a mesma diretora volta com elementos ainda mais insólitos para pensar sobre a busca de identidade em Titane (2021). 

O tema da obsessão é um eixo central do body horror. O desconforto visual em cada um desses exemplos sempre é gerado pela deformação física em razão de algo que os personagens querem muito. Nesse sentido, Juntos traz uma inovação ao gênero: o terror corporal se manifesta não a partir de um grande desejo, mas de uma grande negação. O elemento causador da aflição não é o que o casal busca, e sim o que eles não querem e tentam evitar: a codependência e a perda de personalidade em um relacionamento. 

Nesse enredo, cada conversa esquivada pelo casal se torna um castigo físico que vai progredindo até chegar à condenação à qual eles parecem fadados, o que, infelizmente, será excessivamente explicado no final. O roteiro de Michael Shanks traz uma ideia filosófica que é bem explorada na trama, mas a necessidade de esclarecer tudo para ter uma obra fechada tira um pouco do encanto. 

Além disso, o fato de Juntos querer englobar o gênero todo de terror para além do corporal faz com que o filme tente cumprir um checklist, inserindo elementos obrigatórios da categoria que ficam soltos na narrativa. Ainda assim, o filme tem mais atributos positivos do que negativos e ganha o espectador pela entrega do casal de atores dentro e fora da grande tela e, acima de tudo, porque a cena mais assustadora do filme é também a sua cena mais bonita. O body horror segue criando fenômenos para a indústria. 

Minha nota para Juntos no Letterboxd: 3 estrelas e meia. 

Juntos (2025)

Direção e roteiro: Michael Shanks.

Duração: 102 min.

Related posts

“Transamazônia” (2026) aborda a Amazônia como cenário de um drama pessoal e religioso

“Anaconda” (2025) surpreende ao trocar o terror pela crise existencial

“A Empregada” (2025): a anatomia de um relacionamento abusivo