“em minhas veias corre uma formiga”: poesia de Dora Lutz reescreve a tradição com olhar feminino para o futuro

Para quem se debruça sobre a poesia, as possibilidades são tão imensas que escrever é, no fim das contas, um exercício também de escolhas. É olhar para o mundo vasto mundo e tentar capturar do todo amorfo um semblante de algo que pode vir a ser o gesto poético e dali dizer: “sim, isto é poesia.” 

O caso da escrita de Dora Lutz parece ser isso, mas também algo a mais: quando a gente se debruça sobre a poesia, a própria poesia é um manancial infinito de repositórios imaginários de gestos poéticos e exercícios de escrita e imaginações de mundos que a combinação vida-arte é mais do que tudo que se precisa para escrever. Acredito que é a partir desse arcabouço telúrico poético que nasceu em minhas veias corre uma formiga, de Dora Lutz. 

em minhas veias corre uma formiga, publicado pela Editora Cachalote, é o segundo livro publicado pela editora e revisora Dora Lutz, mestre em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela UERJ. O livro é a estreia da autora na poesia com esta obra que se divide em 5 partes: vértebras, 70% água, Temporal, Sangue e Solstício. 

A primeira coisa que salta aos olhos no livro é uma estrutura que parece que vai se repetir: uma abertura com um breve poema, quase como um haikai, numa espécie de gesto que anuncia cada uma de suas partes. No caso de “vértebras”, temos:

TEM QUE QUE VIVE
Cora com o sol
Some na tempestade
Volta nas manhãs 

A partir daí, Dora parece fazer um passeio pelo seu próprio imaginário de construção de escrita e vida, alternando uma série de referências que servem como disparos, inspirações, gatilhos para que a poesia se instaure como tal. E este mergulho, talvez, se dê quase como numa tentativa de se exercitar as línguas poéticas que existem dentro da língua formal, como se um livro pudesse ser composto de um exercício que é um passeio pela história da literatura, da cultura pop e das inspirações da autora. 

Esse passeio por gêneros, formas e procedimentos, no fim das contas, atualiza no leitor uma série de referências que a gente achava estar adormecida, ao mesmo tempo em que revela a poesia não só como a matéria pronta impressa em um papel ou em um livro fechado. Ao contrário, a poesia é também um exercício de montagem e remontagem, de tessitura que se faz e se desfaz no próprio gesto da poesia.

Neste sentido, Dora Lutz é demiurga não apenas de seu próprio livro, em minhas veias corre uma formiga, mas uma antropófoga das formas de outros como ela própria prenuncia:

na luz do sol
a vi como mulher
pela primeira vez
deslizava sob as mãos
cabelos encaracolados

antrofagiei

A temática amorosa/sexual, a melhor de todas as antropofagias, também aparece em diversos momentos, como na reimaginação do poema “Os Três Mal Amados”, de João Cabral de Melo Neto para o poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade. Aqui, através de uma perspectiva feminista, quem ganha o protagonismo são as personagens cujos destinos são traçados por outros homens na poesia de Drummond. 

Poeta Dora Lutz

Teresa, que vai para o convento, passa a vida além-mar, de branco em meio a saudades e orações; Maria, aquela que fica pra titia, chora de tristeza “sem nada interessante para contar” e Lili, a mais misteriosa de todas que se casa com J. Pinto Fernandes, ganha um nome Liliane, mas J. Pinto continua com seu primeiro nome sob mistério. 

E nesse exercício de referenciação, Dora enfrenta os tiros de Bacurau, a fome mimada e infinita de Augustus Gloop, personagem de A Fantástica Fábrica de Chocolate, as batatas oferecidas ao vencedor por Machado de Assis, as andanças noturnas de Edward Hopper e uma Pasárgada de Bandeira imaginada em Bagdá. E como tudo é referência poética, temos até um assalto à livraria interrompido por um dos suicídios mais famosos do mundo literário:

em meio 
a toda gritaria
ninguém lembrou 
de Ana Cristina 
que caiu
aos pés do ladrão

Nesse breve poema, um dos mais fortes do livro, Dora atualiza uma tragicidade inerente da poesia: uma relação intrínseca entre vida, memória e esquecimento. Enquanto Ana Cristina – e os demais poetas – servem para as estantes das livrarias, formando um todo chamado de “história da literatura brasileira” e alimentando um mercado de capital, a própria poeta, seu corpo, sua materialidade, é esquecida e se debruça sem gritos, sem dores, para ser lembrada apenas décadas depois. É a poesia na contramão atrapalhando o tráfego. 

As questões relativas às mulheres também aparecem e reaparecem, mas sempre trabalhadas através dessas referências que deslocam os sentidos, como na menção ao grande poeta paulista de contracultura Roberto Piva:

Apavoramento de Piva
A menina acorda pela manhã e percebe o lençol ensanguentado. Sai correndo pela casa, estranhamente silenciosa, e não vê ninguém. Para em frente ao espelho e, outra vez, encontra o vermelho. Virara mulher. 

Ou então em Sirigaita:

se eu visto,
sou puta
se não visto, 
também
se avisto,
sou maluca
se não vejo,
também 
se choro,
sou fajuta
se corro,
também
independente
ou sozinha
me torno 
ou me tornam
ninguém

Cabe destacar como esse jogo entre a experiência feminina e feminista e uma apropriação poética é particularmente interessante e riquíssima de referências e vai de encontro a uma tendência contemporânea de se achar que apenas a experiência já é per si poesia num mundo infinito de autoficções nem tão imaginativas assim. Em em minhas veias corre uma formiga, ao contrário, toda experiência é tornada corpo na matéria poética que joga com a própria materialidade que é o poema. É tudo em processo, processado e regurgitado, como se o passado machista da poesia precisasse ser todo refeito em nosso mundo contemporâneo. 

em minhas veias corre uma formiga, Dora Lutz, jovem poeta nos faz ver uma poesia que vive, sente e pensa. Que está pulsante em seus procedimentos múltiplos e díspares, atentos e prontos a traçarem sem medo novos gestos para ideias antigas. Uma poesia que sabe ser doce e singela, mas que tem o peso das histórias passadas no momento da escrita. Tem um frescor jovem, mas com a graça do peso de quem sabe que poesia é, talvez, a melhor coisa do mundo. 

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