“O Brilho do Diamante Secreto” (2025) é um estilizado mergulho nas memórias de um ex-espião

É fácil assistir O Brilho do Diamante Secreto e pensar em James Bond. Os olhos azuis de Johh Diman (Fabio Testi/Yannick Renier) remetem a mais recente encarnação do personagem, interpretado por Daniel Craig. Seu evidente apreço por mulheres também, enquanto admira o corpo de uma estranha sem rosto na praia, assim como toda a estética do filme, não estaria fora do lugar das aberturas de 007 dos anos 70/80, coloridas, cheio de silhuetas, musicais.

O problema é que Diman não é mais o espião galã de outrora, mas sim um senhor de idade, aposentado, morando em um hotel na Riviera Francesa, cujo olhar não é mais considerado sedutor, mas sim algo indesejável. “A vizinha do 317 reclamou novamente”, informa o recepcionista do hotel, “tente ser mais discreto”, diz, sem esconder certo desgosto.

Os tempos de glória de Diman, certamente, estão para trás, mas isso não quer dizer que ele se sinta confortável nessa posição, e sua mente vaga entre o presente e o passado, buscando motivos para voltar a ação, mesmo com seus 70 e tantos anos, enquanto se lembra dos momentos de glória, perigo e sedução.

O Brilho do Diamante Secreto não possui uma narrativa tradicional, e a dupla de diretores  Bruno Forzani e Hélène Cattet aposta em uma viagem sensorial pelas memórias e percepções do seu envelhecido protagonista, brincando com várias convenções do gênero para criar sequências visualmente instigantes. Os vários apetrechos do espião se tornam motifs visuais, como um anel em formato de olho, mas surgem de forma fragmentada, como se fizessem parte de um quebra-cabeça de lembranças reconstruído a partir de flashes e devaneios.

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Forzani e Cattet, conhecidos por seu apreço pela estética do giallo e do cinema de gênero europeu, usam O Brilho do Diamante Secreto como uma espécie de colagem afetiva: um tributo ao cinema de espionagem e sedução, mas filtrado pela melancolia da decadência e da memória. 

Essa melancolia se aprofunda conforme a sugestão de que as memórias de Diman não são as mais confiáveis, e que seu passado de espionagem não é o que parece. No lugar de traições e vidas duplas do universo dos agentes secretos, a realidade parece se aproximar mais do mundo traiçoeiro dos bastidores do cinema. A super-espiã arquirrival do protagonista talvez seja, na verdade, a personagem principal de uma outra franquia.

O Brilho do Diamante Secreto não é uma desconstrução, há muita diversão e inventividade nas cenas que abraçam a espionagem para isso —  destaco um momento onde certa personagem luta com ganchos em seu cabelo, ferindo seus adversários com cada movimento da cabeça — uma coreografia absurda e estilizada que remete tanto aos gadgets de 007 quanto ao exagero operístico de certos filmes de ação. Como disse antes, há afeto no filme, mas esse carinho não impede de observar a imensa fragilidade de seu protagonista.

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