“A Médica”: espetáculo questiona os limites da medicina e da religião

Na trama, a Dra. Ruth Wolff é uma médica judia reconhecida que dirige um instituto especializado em pesquisas sobre o Alzheimer. Ela acaba se envolvendo em uma questão delicada ao impedir a entrada de um padre católico no quarto de uma adolescente que foi internada devido a um aborto mal realizado e que está prestes a morrer. A intenção do padre é aplicar a extrema-unção, mas a médica alega que a presença dele provocará tensão e ansiedade nos momentos finais da vida da jovem. O incidente toma grandes proporções e repercute amplamente.

O espetáculo com dramaturgia de Robert Icke transporta a peça original de Schnhardi (1912), que aborda conflitos entre um médico judeu e a Igreja Católica na Áustria, para um contexto contemporâneo, ampliando as questões de identidade, ética médica e polarização social. A peça mantém a essência do dilema moral (um médico impede um padre de dar a extrema-unção a uma paciente em processo de morte) mas atualiza os debates para incluir temas como gênero, raça, cancelamento e pós-verdade. A peça oscila entre momentos de tensão estática (como debates em salas de reuniões) e explosões emocionais, criando um ritmo que reflete a volatilidade dos conflitos. 

O elenco demonstra um trabalho notável, com performances maduras e envolventes que elevam a complexidade da narrativa. Clara Carvalho brilha como Dra. Ruth Wolff, entregando uma atuação multifacetada que transita com maestria entre a autoridade médica implacável e a fragilidade humana, tornando-se o coração emocional da peça. Adriana Lessa também se destaca pela impressionante transformação física e expressiva ao incorporar um médico idoso, demonstrando um domínio técnico e sensibilidade raros. Os demais atores, experientes e precisos, sustentam a trama com solidez, criando um conjunto coeso que amplifica os dilemas éticos e os conflitos sociais abordados. A versatilidade dos jovens intérpretes complementa o grupo sem desequilíbrios, reforçando a força do elenco como um todo. 

As escolhas técnicas do espetáculo se destacam por sua elegância e eficiência, contribuindo significativamente para a imersão na trama. A cenografia de Marisa Bentivegna, com suas paredes de vidro móveis, é um acerto notável, minimalista, porém extremamente versátil, transita com fluidez entre a frieza institucional do hospital e a atmosfera mais pessoal da residência da Dra. Ruth Wolff, reforçando a dualidade entre o público e o privado. O desenho de luz de Wagner Freire complementa essa dinâmica com maestria, utilizando iluminação clínica e branca para as cenas hospitalares, criando um tom de impessoalidade, enquanto luzes mais quentes e focadas envolvem os momentos íntimos da protagonista, acentuando sua vulnerabilidade. Essa harmonia entre cenografia e iluminação não apenas serve à narrativa, mas também amplifica seu impacto emocional, demonstrando um trabalho técnico coeso e reflexivo, que eleva a encenação sem jamais ofuscá-la.

A direção de Nelson Baskerville demonstra um trabalho seguro e competente, equilibrando com habilidade os contrastes da narrativa — entre a urgência hospitalar e a introspecção íntima, entre debates tensos e explosões emocionais. Sua condução do elenco é um dos pontos fortes, evidenciada pelas performances coesas e pelo destaque dado a protagonista, Clara Carvalho, cuja personagem ganha camadas sob sua orientação. Baskerville também acerta no ritmo, alternando cenas estáticas e dinâmicas de forma orgânica, refletindo a volatilidade dos conflitos abordados. Sua colaboração com a equipe técnica resulta em uma encenação coesa, onde cenografia, iluminação e interpretação convergem para potencializar o impacto da trama. A atualização do clássico para os dilemas contemporâneos — gênero, ética médica e polarização social — é tratada com inteligência, evitando didatismo e permitindo que os conflitos surjam organicamente. Um trabalho que, sem perder de vista a força do texto original, imprime à montagem uma identidade própria, marcada por escolhas criativas que honram a complexidade do material e engajam o espectador do início ao fim.


O espetáculo A Médica se consolida como uma montagem competente e bem executada, que cumpre com eficiência seu propósito de transportar um clássico para os dilemas contemporâneos. A direção de Nelson Baskerville equilibra com segurança os contrastes da narrativa, extraindo ótimas performances do elenco — em especial de Clara Carvalho, cuja protagonista carrega o peso emocional da trama com maestria. As escolhas técnicas, da cenografia versátil à iluminação precisa, servem à narrativa sem excessos, criando uma atmosfera coesa que reforça os temas abordados. Embora a peça não rompa com convenções estéticas ou narrativas, sua força reside na habilidade de articular debates complexos — ética médica, religião e polarização social — sem cair no didatismo, mantendo o espectador engajado. Recomendável pela qualidade do conjunto e pela relevância de suas reflexões em um momento de tantos conflitos sociais.

FICHA TÉCNICA:
Idealização e Produção Geral: Rosalie Rahal Haddad
Texto: Robert Icke
Tradução: Diego Teza
Direção: Nelson Baskerville
Assistentes de Direção: Brunna Martins e Thiago Ledier
Elenco: Clara Carvalho, Adriana Lessa, Anderson Müller, Cella Azevedo, César Mello, Chris Couto, Isabella Lemos, Kiko Marques, Luisa Silva, Sergio Mastropasqua e Thalles Cabral
Música Original: Gregory Slivar
Música ao Vivo: Edézio Aragão
Cenário: Marisa Bentivegna
Cenotecnia: Edilson Quina, Edson Quina e Cintia Matos
Produção de Objetos: Jorge Luiz Alves
Figurino: Marichilene Artisevskis
Assistente de Figurino: Alice Leão
Costureiras: Judite Gerônimo de Lima e Glória Amaral
Envelhecimento: Foquinha Cris
Iluminação: Wagner Freire
Direção de Imagem: André Grynwask e Pri Argoud (Um Cafofo)
Operação de Som: Samuel Gambini e Valdilho Oliveira
Operação de Luz: João Corbett
Direção de Palco: André di Peroli
Camareira: Elisa Galdino
Visagismo para Fotos: Marcos Padilha
Fotos: Ronaldo Gutierrez
Vídeo para Redes Sociais: Luisa Silva e Othilia Balades
Registro em Vídeo: Ícarus Filmes
Designer Gráfico: Rafael Oliveira
Gerenciamento de Redes Sociais: Selene Marinho e Sergio Mastropasqua
Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes
Produção: SM Arte Cultura
Direção de Produção: Selene Marinho
Coordenação de Produção: Sergio Mastropasqua
Administração: Patricia Pichamone
Produção Executiva: André Roman / Teatro de Jardim
Realização: Círculo de Atores

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