7 poemas de “Ninguém quis ver”, de Bruna Mitrano

Bruna Mitrano é escritora, poeta e professora. Nasceu em 1985, no Complexo de Senador Camará, periferia do Rio de Janeiro. Em 2010, esteve entre os vencedores do prêmio Off-Flip. Publicou em diversas revistas no Brasil e no exterior e teve textos traduzidos para o inglês no projeto Contemporary Brazilian Short Stories (Califórnia). Participou de algumas antologias e estreou com o livro Não, publicado pela editora Patuá em 2016. Em 2023, Ninguém quis ver foi publicado pela Companhia das Letras.

Nesse livro, também título de um poema, o eu lírico revela, por vezes, em tom de denúncia, muitas situações que, geralmente, permanecem invisibilizadas. Dividido em 5 partes – longe; coisa de família; urubus etc.; desastres naturais; suportar tudo isso – retrata, ainda, momentos áridos sem esconder suas fragilidades em questões relacionadas ao corpo, à memória e à infância.

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“Com sensibilidade brutal e contundente, Ninguém quis ver aprofunda reflexões sobre a vida à margem, condição relacionada à desigualdade de gênero, mas também ao contexto geográfico e social. Nascida na periferia do Rio de Janeiro, Bruna Mitrano faz parte de uma nova geração de autoras que têm reinventado a linguagem poética.” (Sinopse) Compre AQUI!

Confira alguns poemas:

ninguém quis ver
nasci com dentes podres
coisa de família
minha avó ficou banguela
aos vinte e seis
os tios todos
têm dentadura
criança diziam tão bonita mas
assim
não vai arrumar namorado
eu não queria arrumar namorado
arrumei vários ossos quebrados
ossos fracos
coisa de família
disseram bruna você parece
que pode partir ao meio
a qualquer momento
eu parti muitas vezes mas
ninguém quis ver
que não quero namorado
e que meu mau hábito
de não escovar os dentes
é porque nunca paro de comer
porque o que sinto não é fome
é o sentimento da fome
que talvez seja coisa de família
nunca entendi essa coisa de família.

punição
aos sete anos meu maior erro
foi derrubar o queijo ralado
enquanto guardava as sobras
da barraca de cachorro-quente

lembro de ficar parada
olhando o pote meio virado
apoiado na sua lateral
a tampa longe
o queijo quase um pó quase areia
desaparecendo na terra seca
e pensar

podia ter sido a batata palha
que é mais barata

depois
me joguei no chão e
gritei até o grito
ir acabando
como cordas de violão
que arrebentam uma a uma

minha mãe se aproximou
e olhou do alto

achei que ela ia me bater ou
me puxar pela orelha

mas não

daquela vez
minha mãe quis
que eu não sentisse dor

ainda hoje
carrego com cuidado
essa coisa
frágil como um cílio solúvel
que parece raiva
raiva de mim.

estranhos
não conheci meu avô
dizem que foi morto de porrada
quando ameaçou matar os filhos

não conheci meu pai um
o que engravidou minha mãe duas vezes
e abandonou minha mãe duas vezes

conheci meu pai dois
o que me deu sobrenome e me amou tanto
que fez coisas que um pai não devia fazer

não conheci nenhum homem
que tenha me conhecido

que tenha conhecido
a minha mania de reproduzir com o dedo no ar
as linhas do teto

que tenha conhecido
a história dos meus ossos quebrados

ou de quando consegui voltar
antes do anoitecer
pra pensão de moças

depois de me perder no bambuzal
com uma amiga que eu queria
que fosse mais que amiga

não conheci nenhum homem
que tenha conhecido
os sons do meu sono pesado

porque não durmo pesado
perto de estranhos

teve época até
sempre alerta e com a mão
direita na faca
debaixo do travesseiro

depois que um homem
na ilusão de me conhecer
fez do meu corpo seu território
em guerra.

herança
meu tio conta que certa vez
meu avô convulsionou atravessando a passarela
e rolou pela escada

ele vendia frutas num carrinho de mão

imagino maçãs e laranjas quicando nos degraus
sem esperar pelo corpo do meu avô
se debatendo em queda
dando com a cabeça em bocéis
inconsciente das perdas e das partes quebradas

igual a você
meu tio diz

igual a mim
que herdei a epilepsia
de um homem que não conheci

e o medo de atravessar passarelas.

contra este último
desenvolvi uma espécie de procedimento

olhar fixo pra frente
dar passos grandes
e lembrar que ainda
tenho um chão debaixo dos pés.

teresa
a primeira vez que vi
incendiarem um animal vivo
não pensei na justiça
só pensei no corpo
por que tão pequeno
por que tão sem alma

a segunda vez que vi
incendiarem as casas do meu bairro
não pensei em mais nada

os olhos alimentaram o fogo
e Omolu dançou sob as palhas.

rotina
pela manhã empurrar
lama com rodo

enxaguar os panos
enfiados nos pés das portas

desempilhar os móveis
e colocá-los de cabeça pra cima

toalhas escaldadas
trazem a avó
reerguendo a casa

tantos temporais depois

de desenhar com uma lasca de tijolo
sóis na calçada.

no silêncio
não se diz não prum homem
armado até os dentes

o medo do que já aconteceu ainda
é medo?

sangrei no silêncio
nenhum grito de revolta em meu nome

faz dois anos quinze dias e seis horas que não choro

as pessoas falam
as pessoas sempre falam mas

nenhuma voz sustenta
ou abate
o corpo violado.

Fonte

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