No centro de São Paulo, um edifício corta o céu limpo de outono. É o Edifício Itália, modernista de 1960, que entre restaurantes badalados e bares de cobertura guarda um teatro sexagenário: o Teatro Itália.
Eu conheço esse teatro desde criança. Excursão da prefeitura. Pé direito alto, colunas enormes, cheiro de tempo úmido e memória. Toda vez que volto, sou aquela criança de novo. Não sei se isso influencia minhas impressões, mas assistir Il Primo Miracolo foi especial de um jeito que crítico nenhum aprende na faculdade.
Ao entrar, a produção nos convida a sentar no palco. Incomum para um teatro desse porte. O terceiro sinal toca, as luzes não se apagam – e não faz falta. Roberto Birindelli aparece descalço, roupa preta, sorriso de professor que sabe que você vai gostar da matéria. O formato arena, num teatro tão grande, gera um desconforto gostoso nos espectadores. A gente fica alerta, sem saber onde o corpo termina e o jogo começa. Para mim, que já fui criança ali, é mágica pura: ver de perto cada gesto desse mestre que sozinho representa 22 personagens com muito humor.
Il Primo Miracolo parte dos Evangelhos Apócrifos – aquela infância de Jesus que não virou cartão de Natal. Ali, o menino sofre bullying, sente raiva, quer ser incluído. É humano. Mas Birindelli vai além. Ele chama Jesus de “Palestina”. Com carinho. Com dados: Belém, Nazaré, a região que os romanos renomearam Síria Palestina depois de esmagar uma revolta. Não é militância de palco. É teatro que lembra o que a fé tenta esquecer.
E a atuação? Birindelli vira 22 pessoas. Cada uma com um jeito de ficar em pé, um tique na boca, uma voz familiar. Mas o que me encanta mesmo é a liberdade: de repente ele sai do texto, olha para a plateia, comenta algo – e volta como se nada tivesse acontecido. A personagem continua ali, respirando. Ver isso de perto, para um ator, é como ver o pizzaiolo abrindo a massa. Você já comeu pizza a vida inteira, mas só ali entende o que é o braço, o tempo, o fogo.
A direção de Neyde Veneziano é criativa. Deixa o mestre trabalhar. E o resultado me transporta para aquela infância no Teatro Itália, onde tudo era possível e eu não sabia o nome de nenhum conceito crítico.
Saio do Itália com a boca seca e os pés frios. A noite de outono está lá fora, mas dentro de mim ainda ecoa aquele Jesus que atira pedra de volta, que exige ser incluído, que carrega no nome a geografia de um povo soterrado. Birindelli não fez um espetáculo. Fez uma fenda na parede do teatro. E por essa fenda entrou o mundo – com todas as suas feridas e todas as suas possibilidades de milagre.
Ficha Técnica:
Adaptação e Atuação: Roberto Birindelli.
Direção: Neyde Veneziano.
Produção Executiva: Denan Pettmant.
Assessoria de Imprensa: Nossa Senhora da Pauta.
Apoio Cultural: Bibli-ASPA e Apê Smart Studios.
Realização: L2C.