Autocitação pode ser egocêntrico e até cafona, mas não é ilegal e creio que cabe neste contexto. Há algumas semanas comecei minha crítica de “Rainha do Carvão” assim:
“Os concursos de beleza são um dos últimos redutos do patriarcado por excelência, e vêm sendo questionados sobre sua real validade como disputa ou se são apenas desfiles de carne onde os corpos das mulheres são julgados e colocadas umas contra as outras, com parcos momentos regados a citações de “O Pequeno Príncipe” em que elas podem mostrar que têm conteúdo e são mais que rostinhos bonitos.”
Tendo este parágrafo em mente, só poderia esperar com expectativa alta um filme que prometia subverter a lógica dos concursos de beleza e ainda fazer um comentário sobre papéis de gênero. Mas tal filme, “A Miss”, só trouxe decepção.
Martha (Maitê Padilha) é uma veterana dos concursos de beleza, mas contra a própria vontade. Ela é obrigada a competir pela mãe, Iêda (Helga Nemetik). Iêda é o tipo de mãe que reclama da falta de hábitos saudáveis da filha que come um pão com manteiga enquanto ela própria solta a fumaça de um cigarro aceso na boca do fogão.
Um dia, após discutir com a mãe sobre sua inscrição em mais um concurso, Martha volta para casa e encontra o irmão gêmeo Alan (Pedro David) com um vestido vermelho que me lembrou da diva Silene Seagal em “Saneamento Básico – o Filme”. O plano perfeito é traçado: Alan passará a competir no lugar de Martha e todos ficarão felizes.
O principal erro na construção dos personagens foi vilanizar em excesso Iêda. Ela grita com os filhos, fala na cara deles que Martha é uma fracassada e Alan é um acomodado. Como bacharela em Biblioteconomia, fiquei ofendida quando ela disse “até para ser bibliotecário precisa de diploma”. Não tem como gostar dessa personagem. Nada a redime, e seria interessante ela ser mais simpática para que o público visse também seu lado e talvez até pendesse para dar razão a ela.
Outra construção errada de personagem: Atena (Alexandre Lino), funcionário do salão de beleza de Iêda. Ele pelo menos é simpático, porém problemático: para convencê-lo a ajudar no plano deles, Martha e Alan ameaçam contar que ele é heterossexual e finge ser gay para trabalhar no salão. Pleno 2026 e esse plot horrível?
A construção narrativa através da montagem é confusa. São escolhidas duas linhas temporais: a do cotidiano e a do dia do concurso Miss Grajaú. Elas se interpolam e o clímax é esperado para ser o resultado do concurso. O resultado sai na marca de uma hora, mas ainda restam 45 minutos de enrolação. É aí que temos um flashback mostrando a trajetória de Iêda como miss, numa tentativa falha de humanizá-la: àquela altura do filme o ranço já havia se instalado nos nossos corações.
Esta é a estreia no cinema do roteirista, produtor e diretor Daniel Porto e o amadorismo grita. “A Miss” foi concebida como peça de teatro em 2016, e talvez realmente funcionasse melhor nos palcos. Sobre seus objetivos com o filme, que ficaram só no discurso, ele diz:
“São três personagens que dividem o protagonismo de uma história que não fala sobre um indivíduo, mas sobre o que é ser uma família e como é difícil aceitar o outro como ele é”
Os créditos passam ao som da antiga e talvez um pouco cafona “Canção das Misses”, que você já deve ter ouvido e esquecido: “Os estados brasileiros se apresentam numa festa de alegria e esplendor, etc”. Cantada há décadas por Ellen de Lima, foi composta por Lourival Faissal. A música volta mais tarde, no que é uma crítica não planejada da decadência dos concursos de miss.
Poderia se dizer que há uma tentativa de crítica através da sátira, principalmente na sequência com as perguntas vazias e respostas estapafúrdias das candidatas. Mas, assim como para Iêda, para o filme como um todo não há redenção. E nem entramos no mérito de tratar identidade de gênero como uma “montação” e nunca dar voz para Alan, o que acaba sendo só mais um neste compilado de erros em forma de película.
“A Miss” é um lançamento Olhar Filmes e estreia nos cinemas em 26 de fevereiro. Confira o trailer:
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