A obra Sátántangó, do autor húngaro, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2025, László Krasznahorkai, apresenta-se como uma leitura densa e incômoda, mas profundamente necessária.
O ato de ler, em si, é desafiador devido à diagramação, já que o corpo do texto não possui paragrafação. Em Sátántangó, cada capítulo é um parágrafo. Saber disso torna ainda mais admirável o trabalho do tradutor Paulo Schiller, que verteu o romance diretamente do húngaro para o português.
A ambientação da narrativa é cheia de elementos que trazem uma sensação de angústia e frieza, quase como se refletissem o interior das personagens. Ademais, há uma chuva constante, que varia de intensidade, porém nunca cessa, assim como a falta de esperança de seus personagens, que se aplaca em alguns momentos, mas está sempre à espreita.
Em seu enredo, acompanhamos as personagens, compostas por alguns casais, um médico, crianças e, principalmente, Irimiás, uma espécie de guia e messias para todos da aldeia, que está sempre acompanhado por Petrina. Todos parecem confiar muito em Irimiás, porém, em diversos momentos, há o medo de estarem sendo passados para trás por ele. A figura dessa personagem é bastante ambígua.
O livro retrata, principalmente, a miséria, seja ela a miséria financeira, assim como a miséria que advém da falta de perspectivas e da falta de humanidade. Os indivíduos parecem ser consumidos por angústias que fazem com que apenas sobrevivam do modo como conseguem, como animais, deixando de lado sua humanidade, seus valores e sua empatia.
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Há diálogos e pensamentos importantes que questionam a existência, a morte, a falta de sentido e a angústia como experiências indissociáveis da experiência humana. Um discurso crucial da obra é proferido por Irimiás, na taverna, ao se questionar se não seríamos todos nós culpados e responsáveis por aquilo que acontece à nossa volta. Há ainda duras críticas à falta de ação e à impotência, classificadas como atos de covardia.
Sátántangó constrói uma narrativa marcada pela estagnação, pela espera e pela repetição, na qual a miséria material e moral se impõe como condição dominante. Ao recusar qualquer promessa de redenção, o romance confronta o leitor com a culpa, a inação e a responsabilidade coletiva, transformando a leitura em uma experiência tão incômoda quanto necessária.