“Fragmentos de um Céu Submerso”: livro de Adriano Versiani se volta para a terra para encontrar sua poesia

O filósofo Jacques Derrida possui um texto muito famoso, seminal em sua produção, chamado “Che cos’e Ia poesia?” (Que coisa é a poesia?) em que ele enfrenta essa matéria bruta que é uma das perguntas mais difíceis do mundo: afinal, a poesia o que é?

As duas afirmações do autor para se chegar à resposta são: primeiro, abandonar o saber e, segundo, abandonar a cultura. Eu, assumindo minha pequenez frente ao filósofo, costumo dizer que para entender poesia, em geral, é sempre mais fácil se perguntar “onde” e não “o que” porque poesia é, pra mim, sempre mais coisa de lugar. E creio que este seja o melhor caminho para nos aproximarmos da poesia de Adriano Versiani. 

Fragmentos de um Céu Submerso é um livro de poemas, ou, melhor dizendo, quase todo de poemas, de Adriano Versiani, publicado pela editora Bandolin. E opto por chamar de livro de poemas porque acredito que a pulsão de existência desta obra é são seus poemas e seus textos finais são pequenos respiros poéticos com contos regionalistas: escritas em prosa, mas com tantas grandes toques na poesia. 

Porém, se é verdade, como dizemos lá em cima, que toda poesia se situa em um “onde, no caso da poesia de Adriano, a palavra seria “terra”. A sua obra como um todo, mas em especial sua poesia, é toda telúrica. A palavra “telúrica” que não é tão conhecida por grande parte de nossa população significa mesmo só isso: tudo aquilo que diz respeito à nossa terra, ao nosso solo. 

De certa forma, a senha para o entendimento está até no próprio título do livro, mas codificado de outra forma: “Fragmentos de um Céu Submerso”, no caso aqui, em um céu que submerge também desce para ver o mundo da perspectiva da terra.

É que, no caso, a terra não é personagem da obra de Adriano, ela é uma espécie de ethos, de base, de estrutura, de barro fundacional pelo qual ele vai ver o mundo, tanto que, em seu primeiro poema, ele apresenta o chão como base do seu universo tal como os gregos faziam:

o chão
é o céu

refletido

Para em seu segundo poema, ver o tempo ser, aí sim, refletido da perspectiva da terra. Seu título é “Cronos telúrico”:

Risco
com ponta dos dedos
suas entranhas (…)
A semelhança
com o humano
faz tremer,
Enraizar e
desenraizar.

Tristes terremotos.

Devorar-me-á quando?

A perspectiva telúrica da poesia permite ao poeta fazer uma travessia sinestésica pelas terras do cerrado e da caatinga brasileiros apontando, por exemplo, para “a beleza do inhambu”, destacando seu cinza avermelhado, mas também propondo uma poesia rasteira que olha por cores, sons e cheiros que estão ali por baixo. Observando animais que caminham e rastejam pelas terras ou nadam pelos rios e observam “o chão” que “não escurece” e o céu que “não tem lua / nem sol / nem a claridade das estrelas”. 

Estamos diante, de certa forma, de poesia que é como um calango na terra: que vai caminhando pelo território e deixando rastro aqui e acolá, vai apontando um desenho aqui e acolá, vai levantando poeira, vai passando e quem sabe, talvez seja só feita de rastro. Fragmentos de um Céu Submerso é poesia de rastro, afinal, como diz o poeta em “Interdependência”:  Mas há céu sem chão?

Pois é aí que entra um segundo elemento essencial na poesia de Adriano Versiani: a relação direta entre céu e terra. Em um de seus poemas, ele diz:

contempla-se
o Universo inteiro
a partir de baixo

Este poema, a meu ver, apresenta uma espécie de tratado de metafísica terrena proposta pelo autor, algo próximo do que pensava o heterônimo Alberto Caeiro de Fernando Pessoa, que acreditava que Deus se manifestava nas coisas da natureza:

“Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.”

Entretanto, no caso de Adriano há ainda uma questão a mais: não há Deus a se manifestar, há um Universo – única palavra maiúscula do poema inteiro – a ser contemplado, a partir de baixo. E não quer qualquer parte do universo não, é o universo INTEIRO a ser contemplado. Mais: contemplar-se, um sujeito indeterminado, simplesmente contemplar-se, um gesto a ser feito por todos, ou por alguém, ou por alguéns. Um pequeno poema que traz tanto consigo. 

Isto porque a figura de Deus para Adriano é a do ser do silêncio, daquele que não nos responde:

É duro quando 
Deus se disfarça
De nada
Surdo, mudo
Impassível
Chama
Que arde

sem se ver
É uma condenação?

Para falar um pouco da prosa, chama atenção o texto “Falsa Biografia de Lampião”. A alegria do texto já começa na epígrafe de Lygia Fagundes Telles em que a autora diz que a gente precisa variar as histórias para improvisar com nossa imaginação. E isso faz Adriano ao propor uma cena de pensão em que dona Adélia, uma viúva conversa com seus dois irmãos, Cláudio e Homero, sobre diversas notícias, inclusive sobre a suposta passagem e subsequente morte de Lampião e Maria Bonita ali na região, no norte de Minas Gerais. Delinha, que nos dá a entender que recebeu os cangaceiros ali, faz um tratado sobre a luta dos que precisam contra os poderosos, tudo isso sem deixar os irmãos perceberem nada. Diz ela:

“Toda terra tem fome de eternidade. Aqui não é diferente. Todo mundo sabe que o norte de Minas é lugar de homem e mulher valente e de gente honesta. O ar seco, o chão fundo e o clima quente não deixam dúvidas de que, para viver aqui, tem que ter força.” 

Fragmentos de um Céu Submerso, de Adriano Versiani, é um livro de quem está preocupado com a poesia, com a forma e com a terra e sabe compor os três com talento e cuidado. Sabe que olhando para sua terra, faz o mundo ficar maior. Sabe que a poesia é feita da quantidade de pedra bruta que a gente batalha, tal como na lavoura. Um livro pequenino, mas cheio de força poética e encanto.

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