“Contos de Tecedeira”, de Karine Moreira Silva: quando escrever é também ser tecelã das palavras

Ao refletir acerca do gênero conto, Júlio Cortázar afirma que “o fotógrafo ou o contista sentem necessidade de escolher e limitar uma imagem ou um acontecimento que sejam significativos, que não só valham por si mesmos, mas também sejam capazes de atuar no espectador ou no leitor como uma espécie de abertura.” No caso de Karine Moreira da Silva, em seu livro Contos de Tecedeira (Caravana Grupo Editorial), poderíamos dizer que, partindo da afirmação de Cortázar, a imagem central de sua obra seria a da tecelã.

Imagem: Divulgação

O ato de tecer é um gesto que requer calma e paciência. Tecer requer que sua mente esteja no momento presente. Na era acelerada, são tempos árduos para quem constrói um mundo feito a mão. Os dez contos de Karine estruturam-se a partir da metáfora de tecer como forma de existência, memória e ancestralidade. As histórias privilegiam gestos simples e banais do cotidiano, muitas vezes despercebidos por nós. 

“Todos os saberes do mundo cabem em um elo. Ao tecer, cada elo que aumento na corrente da trama é o tempo da sabedoria perpassando-me — e tramo para laçar seus fios em nós justos. Cada elo é como aquele feixe de luz, o raio de sol que vejo atravessar a fechadura da porta da casa: tem a magia de iluminar meu caminho.” Contos de Tecedeira, página 11

O ato de tecer evoca personagens femininas da literatura ocidental, em especial Penélope, da Odisseia de Homero, que tecia durante o dia e, ao cair da noite, desfazia silenciosamente o próprio trabalho. No dia seguinte, recomeçava o tear e, por meio desse gesto reiterado, conseguiu afastar os pretendentes enquanto aguardava o retorno de Odisseu. Apesar de não haver nenhuma personagem que evoque diretamente a tecelagem de Penélope, as personagens de Karine deslocam o silêncio da espera para um protagonismo ativo e tecer construindo sentido.

Leia também: “Os olhos de Capitu”, de Flávio Adriano Nantes: entre mulheres, silêncios e mães

Esses trabalhos manuais, como os de Penélope, são historicamente associados ao gênero feminino.  Ao trazer esses gestos para o centro da narrativa, a autora desloca práticas tradicionalmente consideradas insignificantes, um hobby considerado “bobo de mulherzinhas” feito cotidianamente sob a invisibilidade. Tecer, então, assume o sentido de entrelaçar as experiências e lembranças através do feminino. A vida, assim como o tecido, não está completamente acabada. Há acertos e, se falharmos, possivelmente, teremos de repetir o ato, assim como a personagem de Homero. 

“Historicamente concebida como uma arte menor, no âmbito dos afazeres domésticos, foi pelas mãos do imaginário feminino que a arte de tecer pôde contar mais histórias do que os homens que empunharam armas e cansaram suas penas. Pois a trama acompanha todas as gentes: no tramado das roupas e até no tecido da pele de quem faz a história. A trama obedece ao comando das mulheres que fiam, guardam e cortam o fio do grande novelo da vida.” Contos de Tecedeira, página 29

Para a poeta Tamara Kamenszain, no ensaio Bordado e Costura do texto, foi nos afazeres domésticos e bordados na sala de estar que as mulheres aprenderam, silenciosamente, a escrever romances: “se a escrita e o silêncio reconhecem um ao outro nesse caminho que os separa da fala, a mulher, silenciosa por tradição, está próxima da escrita.”

Karine Moreira da Silva tem consciência desse silenciamento de séculos. Logo, a autora inverte a lógica, do silêncio e do trauma, nasce uma rede de suporte. Chamo a atenção para o conto A trama, o qual explicita a arte menor ligada ao feminino e a coletividade. Através dos fios, uma comunidade de apoio é formada para “[…] superar a passagem de uma grande dor.” O artesanato, agora, é uma nova maneira de sustentar a existência. 

O feminino constrói-se na paciência, na repetição e nos fios. As personagens possuem uma alternativa para se lidar com o tempo: “nos encontramos todos os sábados aqui na Redenção ou em outro parque de Porto Alegre, para tecer, conversar, para festejos em datas comemorativas e em nossos aniversários. Já realizamos muitas excursões para o interior e para o litoral.”

Ao condensar experiências femininas e escolher a tecelã como imagem central do livro, Karine Moreira da Silva tece narrativas a partir de um gesto simples, o artesanato. O trabalho com as mãos é atenção, partilha e anti-fluxo da modernidade acelerada, um meio de conservar a experiência no tempo. Os fios são traçados silenciosamente e resistem ao apagamento. 

Bibliografia consultada: 

CORTÁZAR, Julio. Alguns aspectos do conto. In: CORTÁZAR, Julio. Valise de cronópio. Tradução Davi Arrigucci Jr., João Alexandre Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2006. p. 147-163.

KAMENSZAIN, Tamara. “Bordado y costura del texto”. Historias de amor (y otros ensayos sobre poesía). Buenos Aires: Paidós, 2000. pp. 207-211. 

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Quem é Karine Moreira da Silva?

Karine Moreira da Silva, tecedeira, figurinista, contista e vice-presidente do Ponto Cultural Maria Lisboa. Tece desde a infância inspirada pelos fios das tarrafas de seus ancestrais pescadores e escreve na tessitura dos tempos do tecer.

Imagem: Divulgação/ Acervo pessoal

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