Linguagem, memória e imigração são temas investigados em obra que une poesia, fotografia e bordado
Com publicação pela editora paranaense Telaranha Edições, Memórias de água é o terceiro livro da jornalista e escritora Rafaela Tavares Kawasaki, autora também de Enterrando gatos (2019) e Peixes de aquário (2021), o último finalista do Prêmio Mix Literário. A obra foi contemplada pela Lei Paulo Gustavo, da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, e também foi distribuída em uma biblioteca do Consulado Geral do Brasil em Tóquio, no Japão.
Memórias de água reúne em torno de 30 poemas, além de fotografias do acervo de Kawasaki com trabalho de bordado realizado por Lucí A Guerra. Uma das primeiras coisas que chamam a atenção no livro, inclusive, é o cuidado com o projeto gráfico, em que predominam tons de azul – presente na capa, nas imagens, na linha bordado e na fonte dos textos. O uso dessa cor estabelece estética e sensorialmente a obra, marcando a água que já está presente no título.
De acordo com o filósofo francês Gaston Bachelard, a água é um elemento que poeticamente vem muito associado ao inconsciente, ao sonho, à imaginação e à memória – ao que é, essencialmente, subjetivo. Para ele, a água se caracteriza pela sua fluidez, estando ligada ao fluxo sanguíneo, ao interior do ser. Isso também é observado na orelha do livro, escrita pela poeta Julia Raiz “A água com certeza tem seus verbos: vazar, infiltrar, irrigar, escorrer, diluir. Escrever a água só pode ter a ver com movimento.”
A obra de Kawasaki segue um caminho que se assume inacabado e em constante transformação. Ao evocar o tema da imigração entre Japão-Brasil (e também Brasil-Japão), a autora se movimenta em torno da construção e nomeação de lembranças, refletindo sobre idioma e identidade, que ela vai tentando compor e organizar na poesia e nas fotografias. Este movimento é exposto, de forma crua, já no poema que abre o livro:
“memórias de água
eu me lembro da água
meu corpo
um maço de carne elástica
dois anos e meio de peso
paira no limiar
entre o molhado e o seco
boias sustentam os tendões
infladas de vermelho vivo
como os sopros engarrafados
nos balões de festa
e nas bochechas de crianças
dou braçadas
pequenas revoadas de graça
na piscina comunitária
nadadores adultos
levantam ondas ao redor
mas não ouço voz de gente
a água embrenha orelha adentro
para abafar barulhos
faz imitações do resto do mar
no fundo de uma concha
apesar dos corpos em esquadra
não guardo medo de naufrágios
ou afogamentos
é tarde de domingo
sinto minha mãe com meu sonar
de menina-submarino”
(p. 11)
Este texto, que serve como apresentação da obra, leva o leitor a um território memorialístico que é pessoal e, ao mesmo tempo, investigativo. Ao descrever sua experiência ao aprender a nadar, ainda na infância, o eu-lírico propõe nela um exercício em que tensiona a memória – o que se identifica a partir do uso do tempo verbal presente, em especial no verso “é tarde de domingo”, da última estrofe.
Deste modo, o poema pode indicar também um flashback, ou uma memória que se revive de forma fragmentada, e que afeta emocionalmente o eu-lírico. Isto é indicado pela primeira e pela segunda estrofe, em que os elementos aparecem de forma avassaladora (como em “boias sustentam os tendões/infladas de vermelho vivo” e “nadadores adultos/levantam ondas ao redor”).
Assim, o título deste poema é polissêmico, já que a “memória de água” é literal e, ao mesmo tempo, um evento inconsciente do qual tenta-se elaborar, sem “medo de naufrágios/ou afogamentos”. E este é o trajeto que o livro perscruta, daqui em diante.
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Neste sentido, dois elementos são centrais à poesia de Kawasaki: a linguagem e o cérebro. Aspectos centrais na formação da memória e da identidade, em Memórias de água eles aparecem em uma chave experimental, como se procurasse compreender sua função e funcionamento. Isto fica evidente no poema “umami” (p. 29):
“cérebro tem o gosto
da comida que você
tempera com ajinomoto
os neurônios comungam
pequenas doses de glutomato
por isso memórias
são são doces nem amargas
nem salgadas
é para elas que
os cachorros de pavlov
salivam e mostram os dentes”
A palavra “umami”, de origem japonesa, faz menção ao quinto gosto básico do paladar, para além do doce, salgado, azedo e amargo, sendo um sabor considerado “agradável” e “delicioso”, sem tradução direta para o português.
Aqui, portanto, o eu-lírico desloca uma experiência sensorial para o órgão humano responsável pela memória, o cérebro. Pensando o aspecto cultural relacionado à experiência (“tempera com ajinomoto”), pode-se dizer que o texto trata de acessar uma memória afetiva a partir de um estímulo – daí a referência aos cachorros de Pavlov. Por outro lado, o poema também se refere à força da memória cultural do Japão para o eu-lírico, que agora vive em outro país (sendo, portanto, “os cachorros de Pavlov” que “salivam e mostram os dentes”).
A interlocução entre história cultural e história subjetiva e particular faz parte da tessitura em Memórias de água, cujo tema principal, a imigração entre Brasil e Japão se apresenta em suas múltiplas facetas. Memória e identidade não são, entretanto, restritos aos poemas, mas também às fotografias de família da autora, bordadas por Lucí A Guerra, que estão presentes ao longo do livro:
Observa-se que, à imagem, é aplicado um filtro azul, bem como intervenções. Estes pequenos ajustes criam outro significado à imagem, demonstrando o que Kawasaki fez em “memórias de água” e “umami”: a recriação e a reinterpretação da experiência. Ou seja, o filtro e o bordado atribuem uma camada afetiva, dando ênfase à emoção em torno das fotografias. No caso, o filtro azul explicita certa melancolia – que é a memória – e também algo de natureza artificial, inventado – que é o ato de rememoração. O bordado, por outro lado, dá a impressão de textura e de sensorialidade à imagem, apresentando-se também sob formas imaginativas – que, nesta imagem, aparece como um pássaro gigante detrás das crianças sentadas no banco.
Desta forma, o livro de poemas Memórias de água, de Rafaela Tavares Kawasaki é uma obra que apresenta a temática pessoal da vivência da autora entre o Brasil e o Japão, abrindo-se para uma discussão sobre o que é a memória e como ela se forma. A partir deste questionamento, surgem discussões sobre os sentidos, sobre a afetividade, sobre o idioma e sobre a invenção.
*Laura Redfern Navarro (2000) nasceu em São Paulo. É poeta, jornalista e pesquisadora.