A poesia não nasce de flor sozinha. Ela nasce em um jardim já cultivado. Foi essa a primeira frase que me veio à cabeça ao ler a Poesia Vária, de Felipe Mendonça, poeta nascido em Porto Alegre e doutor em literatura brasileira pela UFRJ. Em seu livro de poemas, publicado pela Caravana Grupo Editorial, de Ouro Preto, em 2025, a gente percebe que a poesia tem dois caminhos: a saída e o retorno para casa.
Na saída, a poesia gosta de trilhar viagens pelos caminhos das terras, das estradas, das memórias. Nela, é possível rever trilhos de trens, de lembranças e tecer histórias que atravessam vizinhos ou tempos de outrora, do canto de um canário, passando de um poema para sua própria filha, chegando até a uma poesia dedicada ao próprio Morfeu.
Em outra trilha, no retorno para casa, a sua poesia gosta de fazer o retorno, nesse caso, estamos falando da metalinguagem. É quando a poesia fala com ela própria, em geral, fazendo passeio que ecoa bastante o universo drummondiano, mas que também se volta para as deusas, para a lua, inspiração de todos os poetas, mas também com Freud, o pai da linguagem psicanalítica, berço da linguagem questionadora dos séculos XIX e XX.
Note, leitor, é importante guardar essa oposição, porque ela retornará ao fim da resenha. Porém, por enquanto, vamos seguir acompanhando este desejo pela poesia que volta em Chamado:
Algo que fui
E resiste
Algo que sempre me chama.
Toda minha
imaginação, afeto
E história.
Sentir que enfim
Cheguei em casa
Depois de imensa viagem.
Depois de muito errar,
Viver sem lar,
À beira, à margem.
Em outras palavras, podemos dizer que a “Poesia Vária”, de certa forma lúdica, realmente é poesia e é vária, pois estamos diante de um livro que mergulha profundamente na linguagem, mas também faz dela jogo. Isto significa dizer que a palavra é errante enquanto está de saída de casa, mas, quando retorna ao lar, encontra ali sua casa, memórias e vivências atuais, como Filha:
Menina pequena
Menina miúda
Que quase não sabe
De coisa nenhuma,
Tu és minha Filha!
No entanto já foste
Braça de flores
Repleta de cores,
De rosas e cravo
Deposta nos vasos,
Assim, Felipe Mendonça, trabalha com a palavra como matéria prima de invenção nessa sua coletânea de 67 poemas. Logo no começo do livro, Felipe já dedica um poema a Drummond, mas tratando de desinventar o poeta em sua imagem mítica:
Drummond não existe,
Mas, ao dizer-lhe o nome,
Já se me põe em riste
O espectro
De figura magra,
Melancólica e triste
No decorrer do poema, Felipe nos traz a inexistência de Drummond como uma matéria que se pode tocar, que se pode vivenciar, como se, sua obra fosse tão gigante e tal sua grandeza que mesmo que Drummond inexistisse, ainda assim, sua marca seria indelével:
Drummond não existe,
Mas, ao dizer-lhe o nome,
A boca some-me
A náusea, a fome,
Tua presença, Drummond,
Surda, mão aderente e suja
Que nos influi e consome.
De qualquer forma, não me parece que Poesia Vária seja um livro em que haja sofrimento nas palavras, mas mesmo uma viagem pela poesia, em que tocamos aqui e ali monstros e mestres, viagens e desejos, toques e santos, séquitos e fantasmas, máscaras, carnes, e gritos, Orientes e Ocidentes, tosses e estilhaços, como Felipe diz no poema “Eu”, uma espécie de elegia de leituras em que o poeta lança suas referências diante do papel.
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A bem da verdade, estamos diante de um livro sobre livros, em que temos poemas que são reverências de um poeta apaixonado por seus grandes escritores e seus grandes poemas. Por estes motivos, ele escreve e coloca no mundo esse amor na forma de suas poesias. Fica evidente o desejo em trabalhar, por exemplo, em diversos formatos, emulando gestos como em Fragmento, um dos meus poemas favoritos:
Enorme, imenso
Pelo amor e a culpa,
Mas, no fim, frio, todo
Nas garras de um corvo,
Num lenço
Sob a terra suja.
Em A Vida, Felipe Mendonça, faz um verdadeiro tratado moderno da vida, período em que poetas entendiam que o binômio arte/vida faziam parte de uma mesma coisa que se deveria produzir enquanto se gasta. Isto foi atualizado posteriormente pela pós-modernidade em que uma releitura foi feita através da ideia do corpo como sendo o componente mínimo e essencial da arte, ou seja, toda arte começa no corpo.
Dessa forma, quando traçamos lá atrás que o Poesia Vária apontava para dois lugares: as saídas e os retornos, estamos agora retomando este paradoxo de difícil solução de outro lugar: de onde se retoma a vida? O que é a vida diante da arte?
No começo do livro, a vida parecia algo mais ligado à juventude da palavra, às memórias das gavetas do tempo, agora, ela já se questiona por outros caminhos. Veja:
Trocava tanta filosofia
Por um pouco de malandragem
Para que tanta literatura
se não sei nem cantar uma mulher
se não beijei a boca das putas,
se não brinquei na terra suja?
a vida é telúrica!
e aproveitá-la,
sujar nela
é a grande questão
E continua…
O belo na arte,
a arte retórica
a arte poética
a metáfora
o discurso do método,
a crítica da razão pura
nada ensinam sobre a arte de viver
não dizem mais sobre a vida
do que os homens em silêncio
Poesia Vária, de Felipe Mendonça, é obra de um poeta maduro e apaixonado pelas letras que agora se aventura em mostrar sua produção para o mundo. Sua coletânea de poesia trafega por diversos gêneros, campos e temáticas poéticas, tentando sempre fazer paralelos com a história e a memória da poesia, principalmente a poesia brasileira.
Diante do jogo poético, da metalinguagem, quanto melhor leitores somos, melhores leremos suas poesias e quanto mais gostosa a viagem, mais divertido o livro vai ficando. Espero que você, leitor, goste tanto quanto eu gostei das páginas deste livro.