“Transamazônia” (2026) aborda a Amazônia como cenário de um drama pessoal e religioso

Em certo momento do longa Transamazônia, o missionário Lawrence (Jeremy Xido) interrompe uma manifestação indígena contra o desmatamento da floresta a gritos, enquanto leva um outro indígena, nu, pelo braço no meio da multidão. Ele pede que os manifestantes saiam do local para evitar que não fiquem como o homem que ele expõe na multidão.

Em tese, é uma cena forte. Um homem branco dizendo o que um povo nativo deve ou não fazer sobre sua própria terra, enquanto expõe um outro nativo de modo humilhante, acreditando que está fazendo o bem. Um belo sumário de certo colonialismo que a região amazônica conhece bem. Entretanto, o momento gera pouco impacto – impressão que será constante no longa – e parece evitar uma perspectiva crítica sobre a situação. Vemos o olhar da filha de Lawrence, Rebecca (Helena Zengel), cuja reação à atitude do pai se resumirá a uma única frase na cena seguinte, e a pouca reação dos indígenas. Ao homem fragilizado e nu carregando pelo branco, resta ser objeto, nos vários sentidos da palavra.

Transamazônia é recheado de tensões latentes, inerentes ao cenário onde a história se passa, a floresta amazônica, disputada pelos nativos e pelos madeireiros e, de certa forma, também disputada por pai e filha, que buscam evangelizar a população local. Na sua missão, os dois têm uma arma importante: a própria Rebecca, que sobreviveu milagrosamente a um acidente de avião, e parece ser dotada de poderes de cura, que se torna central ao conflito, quando a esposa de um madeireiro adoece, e nada que a medicina moderna faz traz alguma solução.

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Essas tensões, contudo, são pouco exploradas, diluídas em uma narrativa que prefere avançar a trama a encarar as contradições que ela mesma apresenta. As primeiras cenas do filme até ensaiam uma possível crítica a posição de Rebecca e Lawrence. A produção abre com uma cena onde a jovem é resgatada dos escombros do avião por um nativo, que a carrega em segurança. Na cena seguinte, o resgate é creditado a “Deus”, e as ações do nativo misterioso, apagadas, um gesto que o filme parece não perceber. O que poderia funcionar como uma reflexão sobre apropriação simbólica e apagamento cultural acaba sendo naturalizado pela narrativa, que não parece consciente nas implicações desse deslocamento.

O resulto é um filme que, na superfície, parece ser dotado de muita potência dramática e política, mas que raramente se compromete em investigá-la de maneira consequente. Transamazônia reúne conflitos históricos, morais e espirituais densos, porém opta por tratá-los como elementos de ambientação, não como motores de reflexão. Mesmo os elementos de escopo mais pessoal, como o mistério acerca do real parentesco de Rebecca, fica um tanto perdido, surgindo mais como um desvio narrativo do que como um elemento capaz de reorganizar o sentido da obra.

Assim, Transamazônia transforma uma matéria-prima carregada de urgência política em um drama seguro e domesticado. O que resta é uma obra consciente da força de seus temas, mas reticente em assumir as consequências de levá-los até o limite, preferindo a sugestão à confrontação.

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