“A Empregada” (2025): a anatomia de um relacionamento abusivo

2025 foi talvez o ano mais alarmante quando falamos de violência contra mulher, tivemos casos tão dolorosos que levaram a população às ruas, como a manifestação organizada pelo Levante Mulheres Vivas em 07/12/2025. E segundo a nova edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher publicada pelo DataSenado, 88% das mulheres relataram ter vivido violência psicológica em algum momento da vida. E é com base nesse tipo de violência tão comum, sofrido pelas mulheres, que temos o desenvolvimento desse thriller.

A Empregada narra a história de Millie (Sydney Sweeney), uma jovem em dificuldades, que vê na chance de trabalhar como empregada doméstica para Nina (Amanda Seyfried) e Andrew (Brandon Sklenar) a oportunidade de recomeçar. Mas logo descobre que os segredos daquela família são muito mais perigosos do que os seus.

O roteiro de A Empregada pode ser considerado pouco inovador quando falamos de um grande filme, mas a originalidade da história está em apresentar perspectivas de o que faz uma mulher permanecer num relacionamento abusivo. Quando recebemos a notícia de uma violência ou assassinato de uma mulher, o primeiro questionamento que fica é “por que ela continuou nessa relação?” O filme aborda justamente essa questão através de uma perspectiva talvez um pouco mais expressionista, ao levar Amanda Seyfried ao extremo, na construção de uma personagem que em muitos momentos está desestabilizada, mas ao decorrer do filme entendemos qual a origem do seu desconforto. 

As atuações inicialmente me incomodaram justamente quando falamos de Amanda Seyfried, por achar que sua interpretação está exagerada em cenas iniciais, mas no desenrolar da história entendemos que seu trabalho está adequado às circunstâncias impostas a personagem, entregando um trabalho visceral com foco nesse expressionismo psicológico, onde a angústia e o medo são externalizados através da atuação. Já Sydney Sweeney cumpre com precisão a função narrativa que lhe é designada. Sua personagem, Millie, encarna uma beleza e vulnerabilidade que, mais do que características, são a isca dramática e o espelho exterior da fragilidade que Nina tenta desesperadamente esconder. Se a performance ecoa seus trabalhos anteriores, ela serve eficazmente ao mecanismo do thriller e ao contraste central do filme. 

A Empregada revela uma escolha estética consciente e funcional, onde a fotografia e a direção de arte operam em sintonia com o expressionismo psicológico destacado na atuação. A opção por uma paleta de cores frias não é meramente decorativa, mas constitutiva da narrativa: ela visualiza a atmosfera emocionalmente gélida e opressiva da casa, transformando o ambiente doméstico em uma extensão da violência psicológica sofrida. Os enquadramentos precisos e frequentemente claustrofóbicos funcionam como uma gramática visual da intimidação e do aprisionamento, externalizando a dor e a vigilância constante. Essas escolhas técnicas tornam palpável o invisível dano da violência emocional.

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Para além de qualquer polêmica, o mérito de A Empregada é cumprir um papel necessário ao dar forma cinematográfica à violência psicológica — um mal tão difundido quanto silencioso. O filme transcende as possíveis limitações de seu roteiro ao criar uma experiência sensorial e emocionalmente coerente, onde a fotografia claustrofóbica e a atuação visceral de Amanda Seyfried convergem para um único propósito: materializar a angústia interior. Ao fazer isso, ele responde com força à pergunta social que o motiva, substituindo o julgamento simplista pela complexidade de um retrato psicológico. Mais do que um thriller sobre segredos perigosos, é um filme sobre a prisão invisível que muitos relacionamentos representam, e seu maior mérito é nos fazer não apenas assistir, mas sentir o peso dessa realidade.

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