Valor Sentimental (2025) e a insustentável leveza de ser um pai

Novo filme de Joachim Trier permite nova leitura do mito do eterno retorno, de Nietzsche, e assim faz um diálogo interessante com a adaptação do romance de Milan Kundera para o cinema, A insustentável leveza do ser (1988).

A opinião do cineasta norueguês Gustav Borg sobre os artistas contemporâneos é um tanto polêmica: “eles são pequenos burgueses demais. Não se escreve Ulisses tendo que levar o filho para o futebol, ou tendo que pagar o seguro do carro. O artista deve ser livre”. Há certa ironia nessa declaração, não pela acidez em si, e sim pelo fato de que Borg usou a liberdade artística em grande parte da vida sendo um pai ausente de duas filhas de quem ele tenta se reaproximar depois de muitos anos. Interpretado por Stellan Skarsgård, ele é um dos protagonistas de Valor Sentimental (2025), novo filme de Joachim Trier, e busca o impossível equilíbrio entre a leveza de ser um artista livre e o peso de ser um pai.

A sequência inicial do filme é montada a partir de uma redação que Nora (Renate Reinsve), a filha mais velha, escreveu por volta dos 12 anos, contando uma história do ponto de vista da sua casa, a grande construção que abrigou a família Borg por várias gerações. Esse é, certamente, um trabalho de ilustração, pois Joachim Trier não se limita a fazer da casa um personagem, uma vez que ela se estabelece mais como um artefato em que todo o drama histórico e conceitual do enredo se revela pela poética, a mise-en-scène e a expressão dos sons e dos silêncios. 

A casa evidencia que não existe uma escala fixa para determinar o que é peso ou leveza na vida dessas personagens, mas sim nuances instáveis. Na redação escolar de Nora, ela recorda as brigas dos pais aos gritos e o silêncio que se instaurava na ausência deles. Mas seria o barulho o peso e a quietude a leveza? Como sugere a narração em off da abertura, os conflitos podiam ser dilacerantes, mas o silêncio posterior carregava o vazio da ausência. Após o divórcio, Gustav se muda para a Suécia, enquanto as filhas permanecem na casa, na Noruega, onde crescem e chegam à vida adulta com uma mãe emocionalmente instável.

Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas)

Embora o distanciamento tenha sido uma escolha implícita de Gustav, o reencontro é difícil também para ele. Ao chegar à casa, em Oslo, para o funeral da ex-mulher, ele evita discretamente o contato com Nora quando a vê pela primeira vez. Ainda que a personagem da filha mais nova Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) seja muito importante e decisiva para a trama, faz sentido considerar que há um triângulo afetivo central no filme: Gustav, Nora e a arte, ou o cinema.

Sob a análise do peso e da leveza, Gustav encontra na arte a sua existência mais leve, a vida de artista livre que sempre prezou. Como parte de uma família, por outro lado, ele parece ciente de um peso que busca manter no registro do inconsciente. Em relação à Nora, é difícil identificar qualquer zona de leveza. Para a, então, atriz de teatro, tudo parece pesado: a relação com o pai talvez seja o maior de seus conflitos internos, mas está longe de ser o único. Mesmo nos palcos, onde ela parece estar em seu elemento, há sempre uma dor a ser atravessada antes de brilhar.

A primeira cena de Renate Reinsve no longa é justamente uma crise de pânico de Nora antes de entrar em cena na peça em que protagoniza. Não surpreende que, após filmar a última sequência, Reinsve tenha confessado a Trier, como o próprio diretor relembra, que, embora Nora fosse uma personagem extraordinária, era um alívio se despedir dela.

Nesse triângulo, o cinema, que teria sido o pivô do afastamento familiar, torna-se o possível agente do reencontro. Gustav retorna à Noruega após uma pausa de 15 anos na carreira, trazendo um novo roteiro que escreveu para Nora ser a grande estrela. Como esperado, ela recusa a proposta, e ele escala então uma atriz consagrada de Hollywood, Rachel Kemp (Elle Fanning). Com isso, o filme originalmente escrito em norueguês é traduzido para o inglês. No processo de construção da personagem, Rachel percebe que, apesar das transformações externas, da cor do cabelo à adoção do sotaque escandinavo, aquela personagem foi concebida para outra atriz e que a obra perde legitimidade ao se afastar de sua ideia original.

Gustav Borg (Stellan Skarsgård) e Rachel Kemp (Elle Fanning)

Esse conjunto de elementos conceituais e metalinguísticos evocados por Trier em Valor Sentimental, somado ao seu lirismo visual, à presença alegórica da casa e à recorrente contemplação de Oslo, pode fazer lembrar de A insustentável leveza do ser (1988), dirigido pelo estadunidense Philip Kaufman, filme que também conta com Stellan Skarsgård no elenco.

O longa de Kaufman é uma adaptação do consagrado romance homônimo de Milan Kundera (1984), cuja base filosófica explora o peso e a leveza por meio do mito do eterno retorno, de Nietzsche, segundo o qual tudo se repete infinitamente e a existência ganha um peso insuportável. Em contrapartida, o romancista propõe que, na verdade, cada momento é inédito e sem repetição, então a existência se torna leve. Kundera desenvolveu essa oposição como um dilema insolúvel, ambientado em Praga de 1968, na antiga Tchecoslováquia, durante a invasão soviética.

A adaptação fílmica realizada por Kaufman estrutura os conceitos centrais do romance a partir de um triângulo afetivo, Tomas (Daniel Day-Lewis), Tereza (Juliette Binoche) e Sabina (Lena Olin). Para além desse eixo em comum, surgem outros paralelos que permitem um diálogo interessante entre A insustentável leveza do ser e Valor Sentimental. Ambos investem numa fotografia poética atenta às cidades que moldam a ação, Praga e Oslo, e constroem objetos de expressão alegórica: no filme de Trier, é válido considerar que a casa ocupa função equivalente à do chapéu-coco de Sabina. 

No entanto, o principal foco do filme de Kaufman é a forma como esse triângulo articula os próprios desejos e afetos. A leveza aparece na dissociação entre sexo e amor, especialmente na relação entre Tomas e Sabina, enquanto o peso se manifesta na angústia de Tereza em sua impossibilidade de conceber a relação carnal sem vínculo emocional. Com uma abordagem mais breve das camadas ideológicas dessas relações, a adaptação tende a simplificar as noções de peso e leveza, passando a impressão de que se tratam de categorias estáveis e, por isso mesmo, incapazes de sustentar o complexo equilíbrio que o romance propõe.

Diferentemente de A Insustentável leveza do ser, um filme em inglês falado com sotaques da Boêmia, o roteiro de Valor Sentimental apresenta mais rigor e sensibilidade ao articular possíveis ideias sobre peso e leveza. O texto que Trier escreveu com seu parceiro de longa data Eskil Vogt traz uma narrativa que retorna ao passado de Gustav, aos anos em que sua mãe foi presa por integrar a resistência às forças nazistas, na busca por compreender como os lutos históricos atravessam gerações e a repetição pode se manifestar pelo peso dos traumas. É nesse movimento que o filme compõe uma versão mais elaborada do eterno retorno.

Gustav Borg (Stellan Skarsgård) e Nora (Renate Reinsve)

O roteiro também reflete sobre o valor da obra original frente às exigências do circuito internacional, prezando pela autoria, idioma e contexto sem transformar essa defesa em tese. Cabe ao espectador reconhecer ou não a legitimidade da obra a partir de seu próprio senso crítico. Nesse exercício, Trier sublinha sua mais notável marca autoral: o interesse pelas conexões humanas em sua capacidade de elevar as vidas comuns. Inclusive, ele retoma experimentalismos que remetem aos seus trabalhos iniciais, especialmente Reprise (2006), o primeiro filme da chamada Trilogia de Oslo que inclui o excelente Oslo, 31 de agosto (2011), e o seu mais recente sucesso antes de 2025, A pior pessoa do mundo (2021), também estrelado por Renate Reinsve.

Ainda que o “valor sentimental” possa ser atribuído à casa ou às memórias, é na arte do cinema que o filme estabelece seu símbolo de maior significado. O roteiro de Gustav surge como o único elemento capaz de reconectar o cineasta às filhas. Somente na sua leveza, o personagem teria sido capaz de encontrar a forma de carregar o peso da sua existência sem que isso se tornasse um fardo. 

Valor Sentimental desponta como forte candidato em várias categorias do Oscar 2026. O longa foi o filme mais aplaudido da história do Festival de Cannes e é provavelmente o maior concorrente de O agente secreto em Melhor Filme Internacional e Melhor Ator.

Minha nota para Valor Sentimental no Letterboxd: 4 estrelas e meia.

Sentimental value (2025) 

Direção: Joachim Trier 

Roteiro: Eskil Vogt e Joachim Trier 

Duração: 2h13

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