“O trabalho escravo não é um desvio, mas uma ferramenta do sistema”. Essa é uma frase dita por Leonardo Sakamoto em uma entrevista para o Brasil de Fato sobre o seu livro Escravidão Contemporânea, obra em que organiza uma série de textos sobre o assunto e que foi publicada pela Editora Contexto.
O que significa dizer isso? Bom, em primeiro lugar, é que nenhum caso de escravização se dá por mero acaso, por singularidade, ou seja, nenhum caso é único, todo caso está envolvido numa trama sistêmica que sustenta e ampara um mercado muito mais que aquele caso menor. Segundo, que nenhuma escravização pode ser vista apenas do ponto de vista moral, significando que não estamos falando de mocinhos e vilões, mas de estruturas entre oprimidos e opressores que fazem parte de extratos sociais anteriormente definidos cujo papel cabe a nós denunciar e, se possível, quebrar.
No nosso caso, na literatura, nos cabe ampliar a voz desses oprimidos, contar suas histórias e ampliar suas narrativas. Pois é isso que Sávio Batista faz no inspirador romance O Jagunço, publicado em 2025 pela Artêra Editorial.
Em seu livro, vamos conhecer o jovem Isaque que durante uma noitada regada à álcool se envolve em uma briga e acaba preso. Ainda na prisão, recebe a ajuda de Natan, um jovem que facilita sua saída oferecendo-lhe emprego numa fazenda para cortar cana, adiantando para sua mãe uma pequena quantia, mas grande diante da pobreza da família: 500 reais.
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A notícia, a princípio, parece ser a saída para os problemas da família: o jovem negro que vivia se metendo em problemas finalmente arruma um emprego e a mãe pobre recebe como ajuda financeira já parte do que seu filho viria a ganhar no futuro trabalho. Assim, Isaque é enviado para a fazenda de Seu Orlando, um grande latifundiário local, e se junta a uma série de outros homens tais quais ele em apenas uma coisa: na pobreza.
“As pessoas ao seu redor vestiam roupas em péssimo estado. Todos eram homens, de várias idades e aparências; o mais velho tinha 63 anos e o mais novo, 8. A maioria eram pessoas negras provenientes de zonas rurais pobres e afastadas de cidades grandes. Havia mineiros nordestinos, bolivianos e um argentinos.”
Pois é chegando ao campo onde Isaque irá trabalhar que vamos nos deparar com uma série de figuras arquetípicas que não só vão nos sensibilizar pela sua humanidade individualmente, como também vão nos remeter a figuras seculares que existem em nosso imaginário.
É curioso que quando falamos em “jagunços”, e “coronéis”, ou em “capataz” ou em “capitães do mato”, sempre remetemos a algo lá do século XIX, da literatura que líamos no tempo da escola, do tempo da escravidão ou, no máximo, ali, na literatura regionalista do começo do século XX. No entanto, Sávio Batista com o seu O Jagunço, está aqui nos lembrando que não: com a escravidão contemporânea, as situações são um pouco diferentes, mais modernas, temos celulares, e jipes, no entanto, os casos funcionam mais ou menos nos mesmos moldes. Pois vejamos.
Isaque chega na fazenda e se depara com um Armazém no qual deve “comprar” o seu próprio material de trabalho, das ferramentas às botas, em seguida é levado para um galpão onde vai encontrar seus demais companheiros de trabalho. O galpão onde eles dormem: um lugar fétido, com pouca ventilação, sem colchões.
Ali estão um senhor de idade, Aparecido, e um menor de idade. Temos também estrangeiros em situação de refúgio de outros países. Todos contratados de forma ilegal e informal tal como ele. O trabalho? Jornadas intensas de 12 a 16 horas, de domingo a domingo cortando cana. Porém, cada um paga a carona na pick up – quando há carona – , paga a comida do armazém, a cachaça, enfim, tudo que, claro, também é propriedade de Orlando, o fazendeiro. A conta nunca fecha, por mais que se trabalhe, é sempre prejuízo.
Quem está mediando isso tudo é Natan. Um jovem que faz o papel de “capataz” do seu chefe Orlando, responsável por ser o fiscal da fazenda. Aquele que anda com arma, aquele que é o valente, o violento, mas também aquele que anota todas as coisas que os “trabalhadores” gastam e entrega pro patrão.
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Nesse momento a gente precisa fazer uma pausa para compreender o papel de Natan, pois é curioso perceber como as estruturas se mantêm. Essa resenha não pretende dar spoiler, então vou me manter apenas nos fatos que posso contar sem estragar o prazer de você, leitor: Natan é pobre, ainda que usufrua de alguns bens que recebe de Orlando. Ganha uma pickup que pode fazer uso ali na pequena cidade, anda com algumas roupas melhores e pode exercer poderes dos quais jamais poderia se não estivesse em sua posição. Ainda assim, em termos de salário, é pobre. Salário mesmo, não tem. Tem seu lugar no mundo que depende da vida de seu Orlando. Natan é O Jagunço.
Essa relação de dependência, no caso, compõe uma engrenagem perigosa, mas também, pelo perdão da redundância, muito engenhosa, pois facilita a repetição da máxima de Simone de Beauvoir:
“O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.”
Isto porque, no caso dele, se libertar de Orlando é também se livrar de uma parte afetiva da vida dele, como também se livrar do pouco que ele tem daquilo que lhe permite sobreviver. Mas sigamos.
Do outro lado da casa está Orlando, uma figura típica autoritária. Grande e asquerosa. Arquitetando seus planos e lembrando os porcos gordos do final de A Revolução dos Bichos.
Além dele, no entanto, na casa existem duas figuras ternas que vale a pena mencionar: de um lado, Janete e, do outro, Rosa.
Em O Jagunço, Sávio Batista faz uso das duas para expressar dois contrastes das figuras femininas que orbitam em torno desses grandes latifúndios. Uma delas é a preta “adotada” que trabalha a vida inteira sem receber nenhum salário. A Dona Benta, do Monteiro Lobato. Uma espécie de escrava familiar que, embora desenvolva certo afeto pela família pela qual trabalha, também desenvolve rancor por não poder construir sua própria família e envelhecer sem ter nada seu. Em seus momentos de raiva, pensava:
Ele é um homenzinho mal, Senhor, ruim mesmo. Sei que o Senhor sabe disso, então lhe peço: que o Orlando fique entrevado em uma cama com alguém judiando dele todo dia pelo resto da vida” Não consigo pensar e sofrimento pior, mas faça isso acontecer. Isso é o mínimo que esse desgraçado merece.
É que no caso de O Jagunço, o caso de Rosa é ainda pior. Ela vai passar por violências sexuais que ficam silenciadas e, na ocasião do livro, passará por uma situação grave de saúde que será adiada dia após dia pelo patrão. Rosa, a preta de casa, aquela que espalha o cheiro de comida, responsável por construir o pouco de afeto que a casa grande tem e que parece insubstituível. Infelizmente, quando não serve mais, é trocada por uma outra pretinha qualquer.
E a outra figura feminina é Janete. Janete também é uma moça de classe baixa que viu no casamento (principalmente seus pais viram), uma forma de ascender socialmente. No entanto, uma vez na casa de Orlando, ela se viu violada de muitas formas. Não é escutada, não tem liberdade, é vista como mulher troféu, além das diversas violências físicas e violações sexuais que sofre. Afinal, se Orlando faz o que faz com os homens que trabalham para ele, o que não fará com as mulheres não é mesmo?
Em termos de linguagem, Sávio faz uma narrativa simples, sem necessidade de descrições arabescas ou enfeites. A descrição é crua porque a história que temos é crua. Seus homens e mulheres estão ali para serem narrados. As violências sofridas por Isaque e seus companheiros são tão e tão repetidas propositalmente que nos levam a uma certa náusea, de modo que somos obrigados a ler o livro mais lentamente, embora o livro seja tão bom que a vontade seja de devorá-lo rapidamente.
Esse paradoxo gostoso nos mobiliza para além do livro: nos mobiliza para a reflexão. E quando chegamos ao final – sem spoilers novamente – somos mobilizados à ação política. As personagens do romance resistem à opressão e são colocadas em posição de mobilização política diante de movimentos sociais e fica o gostinho para que nós façamos o mesmo.
Porém, uma pergunta que não respondi e que fica desde o começo: Por que o livro se chama “O Jagunço?”
É porque o personagem principal, desde sempre, é Natan. É nele que está a complexidade. É ele que faz o serviço sujo. É ele o responsável por sujar a mão e a consciência em nome de outro. É ele que coloca o corpo em risco em nome de outro. É ele que na escravidão moderna fica mais exposta à crise ética e moral. Antigamente, o jagunço era aquele que não tinha saída. Hoje, o jagunço é alguém que já pode pensar: “e se eu matar esse filho da puta?”
E quem nunca pensou isso de um capitalista explorador, né?