(Um) Ensaio sobre a Cegueira, do grupo Galpão, é um dos melhores espetáculos do ano

Após o terceiro sinal, enquanto os artistas que já estavam no palco se concentram para o início do espetáculo, o ator Eduardo Moreira dirige-se à plateia: “eu reforço o pedido para que vocês desliguem o celular. (…) Aproveitem a experiência teatral para não usarem esse maldito aparelho“. 

(Um) Ensaio sobre a Cegueira, que esteve em cartaz no Sesc 24 de maio, em São Paulo, se apoia na obra de José Saramago para tecer um mundo onde sempre estivemos cegos, fazendo da epidemia branca que acomete uma cidade inteira, o sintoma, não a sua causa. 

Fotos por Tati Motta,Guto Muniz

Com essa adaptação do material, a proposta do diretor e dramaturgo Rodrigo Portella está em revelar o mundo subatômico da palavra “reparar”. Na epígrafe da obra de Saramago, que conta sobre como uma cegueira branca repentina se espalhou, está escrito: “se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Mas entre tantos feeds, perfis, conteúdos, sites, redes sociais e notificações, ainda é possível reparar? 

Ao longo de 2h30, o público de (Um) Ensaio sobre a Cegueira é conduzido a prestar atenção nos detalhes da criação da própria montagem. Por isso, o espetáculo começa quase na forma de um ensaio propriamente dito. Os atores seguram o texto do espetáculo, folheiam e leem as páginas, deixam evidente que se trata de uma peça e até uma mesa assume a posição do tablado. Os refletores estão à mostra, assim como os cabides com o figurino, cenário montado pelo artistas em cena e até parte da plateia é incluída no corpo de artistas, em uma experiência intensa tanto para quem vê, quanto para quem participa.

Dá pra puxar a teoria de Vilém Flusser para dentro da montagem. Na visão do filósofo tcheco-brasileiro, a invenção da fotografia transformou a sociedade de tal maneira, que o homem moderno vive em estado de letargia, programado para a autodestruição, pois perdeu a capacidade de interpretar o mundo. Para ele, os eventos históricos não nos impactam, servem só para serem registrados. Filmamos pessoas como animais procurando comida em meio aos ossos, filmamos mulheres sendo agredidas nas ruas, filmamos crianças pedindo por socorro, vemos as imagens gravadas de um motorista de aplicativo abandonar uma passageira nas ruas de Belo Horizonte – por acaso, a sede do grupo Galpão – e nada acontece. 

Assim, aquele aviso de Eduardo Moreira no início do espetáculo parece banal, mas, na verdade, torna-se um microscópio: as imagens estão infectando este mundo como se fossem um vírus. 

“Flores Astrais”, de Marcelo Nery: uma saga familiar gótica rural mineira

Na década de 60, Flusser batizou o fenômeno de “pós-história”, teorizou sobre a submissão da sociedade às “caixas-pretas”, mas também deu o antídoto para deter a epidemia: a arte. Talvez, seja essa a razão de um dos belos momentos de (Um) Ensaio sobre a Cegueira girar em torno de uma caixa de som…

Aliás, a trilha de Federico Puppi, juntamente com a genial iluminação de Rodrigo Marçal e Rodrigo Portella, e a cenografia de Marcelo Alvarenga, balizam dois universos simultâneos, só que dependentes um do outro – o de (Um) Ensaio sobre a Cegueira enquanto obra e enquanto um processo colaborativo entre artistas e público, como se cada sessão fosse a etapa de um contágio político sem deixar de ser poético. Sim, a política alimenta a dramaturgia de Portella. Há referências – como os milicianos que tomam o manicômio onde a trama se desenrola, só pra citar um – mas é a sutileza no trato desses elementos que mantêm a febre alta da “imagem poética” sustentada pelo Galpão.

Fotos por Tati Motta,Guto Muniz

Em outra cena que se destaca, o médico (interpretado por Moreira) pergunta para sua esposa (papel de Fernanda Vianna) o que ela vê, pois é a única não acometida pela cegueira branca. A mulher descreve o que está a sua frente, no sentido literal, enquanto ele busca imagens da memória; é neste ponto que reparamos no quanto o fluxo temporal de Portella e do Galpão é importante para o final – esperançoso – da peça mover a plateia para fora do prédio. 

Em (Um) Ensaio sobre a Cegueira, o teatro não está dentro das construções, não pode ser encarcerado por paredes, tampouco acometido de qualquer cegueira porque o processo artístico é o maior antídoto já criado. Se vivemos em um mundo de cegos, o teatro repara a visão. Se o mundo nunca se cala, o teatro guia para onde há silêncio. Se as alternativas são duas retas paralelas – para a direita ou esquerda –, a arte procura onde estão as pontes. 

Se a civilização nos escraviza usando telas minúsculas, para reparar (n)a vida, o Teatro pede: desliguem a luz branca. “Os portões estão abertos”.

Ficha Técnica:

Direção e dramaturgia: Rodrigo Portella
Diretores assistentes: Georgina Vila Bruch e Paulo André
Direção musical, trilha original e paisagem sonora: Federico Puppi
Cenografia: Marcelo Alvarenga (Play Arquitetura)
Figurino: Gilma Oliveira
Interlocução dramatúrgica: Bianca Ramoneda
Iluminação: Rodrigo Marçal e Rodrigo Portella
Adereços: Rai Bento
Visagismo: Gabriela Dominguez
Desenho sonoro, programação e mixagem: Fábio Santos
Assistência de direção: Zezinho Mancini
Assistência de figurino: Caroline Manso
Assistência de cenografia: Vinícius Bicalho
Construção de cenário: Artes Cênica Produções
Costuras: Danny Maia
Fotos: Igor Cerqueira e Mateus Lustosa
Registro e cobertura audiovisual: Luiz Felipe Fernandes
Comunicação: Letícia Levia e Fernanda Lara
Projeto gráfico: Filipe Lampejo e Rita Davis
Consultoria de acessibilidade: Oscar Capucho
Operação de luz: Rodrigo Marçal
Operação de som: Fábio Santos
Técnico de palco: William Bililiu
Assistente técnico: William Teles
Assistente de produção: Zazá Cypriano
Produção executiva: Beatriz Radicchi
Direção de produção: Gilma Oliveira
Produção: Grupo Galpão
Produção local no Rio de Janeiro: Caseiras Produções Culturais
Assessoria local no Rio de Janeiro: Stella Stephany e João Pontes (JSPontes Comunicação) 

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