Como artista, sempre me pergunto sobre a capacidade do meu trabalho em alcançar as pessoas. Será que a mensagem que idealizamos alcança as pessoas? Novas Diretrizes em Tempos de Paz consegue renovar esses votos.
O texto de Bosco Brasil ambientado em 1945, quando a 2ª Guerra Mundial está perto do fim, conta a história de um imigrante polonês, que desembarca no porto do Rio de Janeiro, em busca de uma nova vida como agricultor. No cais ele é colocado perante um oficial da alfândega que desconfia que Clausewitz seja um nazista tentando entrar no Brasil.
A dramaturgia de Novas Diretrizes em Tempos de Paz se destaca pela densidade simbólica e eficácia narrativa, construindo uma alegoria poderosa a partir de uma situação aparentemente burocrática. Ao concentrar a ação no confronto claustrofóbico entre o refugiado polonês e o oficial da alfândega, Bosco opera em duas camadas principais: a dramaturgia do trauma, que revela gradualmente as cicatrizes da guerra na subjetividade do imigrante, e a crítica política e social, que utiliza o absurdo e a sátira burocrática para expor a violência estrutural e a desumanização institucional no Brasil.
A peça herda da tradição rodriguiana a obsessão por desvendar os “podres” sociais, mas com um tom mais contido e absurdista, onde a frieza administrativa de Segismundo personifica um sistema que naturaliza a barbárie. A estrutura clássica, unificada no tempo e no espaço, intensifica o conflito e reforça a ideia de que, mesmo em “tempos de paz”, a máquina do Estado pode reproduzir, em microcosmo, a lógica desumanizante da guerra. Assim, a qualidade do texto reside precisamente nessa síntese entre o psicológico, o político e o formal, criando um drama ao mesmo tempo específico e universal, histórico e urgentemente contemporâneo.
A qualidade da montagem reside na sintonia eficaz entre atuação, cenografia e direção, que potencializam de forma visceral a claustrofobia e o conflito central do texto. As atuações contrastantes e complementares de Eric Lenate e Fernando Billi estabelecem o eixo dinâmico da peça. Billi, como o oficial Segismundo, oferece uma construção rica em nuances e contradições, humanizando sutilmente a frieza burocrática e tornando-o um antagonista complexo. Já Lenate, como Clausewitz, opta por uma entrega mais contida e monocromática, cuja potência explode estrategicamente no monólogo final, criando um ápice emocional impactante.
A direção de Eric Lenate explora inteligentemente o conceito de arena, utilizando uma cenografia rotativa que, ao girar lentamente, impõe uma angústia física e simbólica, obrigando o público a observar a ação por todos os ângulos, como numa inspeção ou interrogatório. Esse dispositivo cenográfico não só materializa a prisão burocrática vivida pelo imigrante, mas também amplifica a sensação de deslocamento e vulnerabilidade, envolvendo os espectadores no mesmo espaço opressivo. A combinação entre a precisão dos atores, a invenção visual do palco giratório e a condução direcional que privilegia o cerco e a tensão resulta numa montagem coesa e poderosa, que traduz com excelência para a cena a densa alegoria política e psicológica proposta pelo texto.
Dessa forma, Novas Diretrizes em Tempos de Paz responde afirmativamente à minha questão inicial sobre o alcance da arte. Ao unir uma dramaturgia afiada a uma encenação inventiva e claustrofóbica, a peça não apenas interpreta o texto, mas a torna uma experiência visceral. Ela materializa no palco giratório a engrenagem opressora do estado e, nas atuações contrastantes, a disputa entre a humanidade frágil e a burocracia desumana. Seu maior triunfo está nessa síntese orgânica, que convoca o espectador a testemunhar e refletir. Assim, a arte pode, sim, transformar — talvez não massivamente, mas tocando um Segismundo por vez, na árdua e necessária tarefa de questionar as barbáries que perpetuamos em nossos próprios tempos de paz.
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SINOPSE
Em 1945, quando a 2ª Guerra Mundial está perto do fim, um imigrante polonês, Clausewitz (Eric Lenate), desembarca no porto do Rio de Janeiro, em busca de uma nova vida como agricultor. No cais é colocado perante Segismundo (Fernando Billi), um oficial da alfândega que desconfia que Clausewitz seja um nazista tentando entrar no Brasil. Sem um salvo-conduto assinado por Segismundo, Clausewitz será obrigado a voltar ao cargueiro e seguir viagem. Para a obtenção desse salvo-conduto, Segismundo propõe um inusitado desafio ao estrangeiro, o que leva os dois homens a confrontar suas memórias: de um lado um ator que perdeu tudo, do outro um ex-torturador que sempre cumpriu ordens.
FICHA TÉCNICA
Elenco: Fernando Billi e Eric Lenate
Texto: Bosco Brasil
Direção Artística: Eric Lenate
Codireção Artística: Vitor Julian
Trilha Sonora Original, Desenho Sonoro e Engenharia de Som: L. P. Daniel
Desenho de Luz: Aline Sayuri e Eric Lenate
Figurinos: Jocasta Germano
Visagismo: Leopoldo Pacheco
Arquitetura Cenográfica: Eric Lenate
Assistência de Cenografia: Jorge Luiz Alves
Cenotecnia: Casa Malagueta
Equipe Cenotécnica: Alício Silva, Georgia Massetani, Igor B. Gomes, Danndhara Shoyama, Mizael Costa, João Chiodo, João Carlos, João Victor, Antônio Paulo
Produção e Confecção de Objetos e Adereços: Jorge Luiz Alves e Eric Lenate
Montagem e Operação de Som: Natália Francischini
Montagem e Operação de Luz: Aline Sayuri
Montagem e Operação de Cenário: Jorge Luiz Alves
Assessoria de Imprensa: Helô Cintra e Douglas Pichetti (Pombo Correio)
Fotos de Divulgação: Leekyung Kim
Programação Visual: Dante
Redes Sociais: CANNAL Mídias Digitais
Direção de Produção e Administração: Mauricio Inafre
Assistência de Produção: Regilson Feliciano
Idealização e Gestão de Projeto: Fernando Billi e Eric Lenate
Produção: Uma Arte Produções Artísticas
SERVIÇO
Novas Diretrizes em Tempos de Paz, de Bosco Brasil
Temporada: de 31 de outubro de 2025 a 8 de fevereiro de 2026
Às sextas e aos sábados, às 20h, e aos domingos, às 16h.
Não haverá apresentações entre os dias 22/12/25 e 08/01/2026
Teatro Estúdio – Rua Conselheiro Nébias, 891 – Santa Cecília, São Paulo (SP)
próximo ao Metrô Santa Cecília
Ingressos: R$ 80 (inteira) | R$ 40 (meia-entrada) | R$ 105 (inteira + Valet) | R$ 65 (meia-entrada + Valet)
Vendas online em Sympla
Bilheteria: 2h antes do início da sessão
Classificação: 14 anos
Duração: 80 minutos
Capacidade: 158 lugares