“João”: um musical que reinventa João Cabral na metrópole contemporânea

A Cia. da Revista finaliza as comemorações de seus 25 anos de trajetória com a estreia de João, um musical original com dramaturgia de Marcelo Marcus Fonseca e músicas de Vitor Rocha (letras) e Marco França (música, direção musical e arranjos).

João é o terceiro espetáculo da trilogia de peças “Conexão São Paulo-Pernambuco”, que iniciou em 2021, com a estreia de Nossos Ossos, a partir do romance do escritor Marcelino Freire, seguida por Tatuagem, adaptação do filme de Hilton Lacerda, que se tornou um fenômeno de público e crítica da temporada paulistana. O trabalho compara a história do escritor pernambucano João Cabral de Melo Neto e seu personagem João em uma fábula surrealista, fazendo uma leitura urbana da questão agrária e da diversidade na vida contemporânea.

Na trama, João migra de Pernambuco para o sudeste em busca de trabalho e tem um encontro casual com seu próprio criador, o poeta João Cabral. Após se separarem, na divisa de São Paulo e Rio de Janeiro, o personagem segue sua vida na capital paulistana, onde conhece Gaivota, uma travesti artista que muda sua vida.

Enquanto isso, de longe, João Cabral conta sua própria história, ao mesmo tempo que evoca a história do próprio Severino, de sua obra-prima “ Morte e Vida Severina”, refletida no centro urbano.

A dramaturgia de João, assinada por Marcelo Marcus Fonseca, opera em uma estrutura pós-dramática, mesclando elementos biográficos do poeta João Cabral de Melo Neto com uma narrativa surrealista e urbana, na qual o personagem-título migra para São Paulo e se encontra com sua própria criação literária (Severino, de Morte e Vida Severina).

Ao transpor a questão agrária nordestina para o contexto da metrópole contemporânea, marcada por gentrificação, diversidade e apagamento de memórias, o texto desloca a linguagem cabralina para um universo fragmentado, onde passado e presente, realidade e ficção, se confundem.

A inserção de personagens como Gaivota, uma travesti artista, reforça uma releitura política da obra original, expandindo suas temáticas para discutir marginalização e resistência na cidade, enquanto a estrutura não linear e a fusão de linguagens (musical, poesia e teatro) sublinham a ruptura com formas narrativas tradicionais, característica do pós-dramático.

O elenco de João, selecionado com maestria por Kleber Montanheiro, demonstra uma sintonia rara e competência multifacetada, entregando performances que equilibram força dramática, habilidade vocal e presença cênica com excelência. Vitor Vieira brilha como João Cabral, capturando a essência do poeta com precisão textual e criação imagética potente, enquanto Dudu Galvão confere ao retirante uma humanidade tocante, mesclando gentileza e resiliência numa interpretação cheia de nuances. Marina Mathey rouba a cena como Gaivota, trazendo atitude, vulnerabilidade e vigor à travesti artista, personagem que simboliza a resistência na metrópole, e Bia Rezi impressiona tanto pela atuação quanto pelo potencial vocal, destacando-se nas canções.

O restante do elenco — incluindo Zé Guilherme Bueno, Gabriel Natividade, Neto Vilar, Pedro Ulee, Pedro Bignelli, Vithor Zanatta e Josinaldo Filho — forma um corpo cênico coeso, com coreografias afiadas e um coro de impacto, como na cena do mezanino, que eleva a narrativa a um clímax emocionante. Juntos, não apenas sustentam a complexa estrutura pós-dramática do espetáculo, mas também respiram vida coletiva à fábula urbana de Fonseca, tornando-a tão visceral quanto poética.

O espetáculo João da Cia. da Revista impressiona pelo rigor técnico e inventividade cênica, características marcantes da companhia. A cenografia inteligente explora o espaço de forma tridimensional, com atuações no mezanino, entradas abaixo da plateia e um banco suspenso que eleva João Cabral, reforçando seu papel de narrador distanciado. A iluminação de Gabriele Souza cria uma São Paulo noturna e opressora, mesclando luzes de postes urbanos com tons frios de azul, que contrastam com a dramaticidade das cenas.

A direção de arte ainda brilha na crítica contundente da última cena, onde a demolição de um prédio é representada por roupas em queda: uma metáfora visual poderosa sobre a destruição da memória em cidades em constante transformação. A fusão de elementos com a direção musical precisa de Marco França e as coreografias sincronizadas do elenco resultam num trabalho técnico impecável e poeticamente político, onde cada detalhe reforça a narrativa pós-dramática e a urgência temática do espetáculo.

A direção de Kleber Montanheiro em João consolida-se como um marco na encenação contemporânea, articulando com rara maestria a complexidade da dramaturgia pós-dramática de Marcelo Marcus Fonseca. Montanheiro demonstra domínio absoluto da linguagem cênica ao transformar o texto em uma experiência multissensorial, onde a fragmentação temporal e espacial (evidenciada no palco verticalizado, com atuações no mezanino e entradas submersas) reflete a própria desconstrução da identidade nordestina na metrópole.

Sua escolha de elevar João Cabral em um banco suspenso não só metaforiza seu distanciamento como criador, mas também cria um jogo de perspectivas entre o poeta e seu personagem, reforçado pela iluminação expressionista de Gabriele Souza. O diretor extrai do elenco performances lapidadas, como a visceralidade de Marina Mathey como Gaivota ou a dicção poética de Vitor Vieira, alinhando-as à precisão coreográfica e à direção musical afiada de Marco França.

Cada elemento, da queda simbólica das roupas (crítica à gentrificação) ao coro no mezanino, é orquestrado com intencionalidade política e poética, confirmando Montanheiro como um encenador que domina tanto a forma quanto o conteúdo, capaz de traduzir a secura cabralina em teatro urgente e pulsante. Uma direção que não apenas conclui a trilogia da Cia. da Revista com excelência, mas redefine as possibilidades do musical político brasileiro.


João consolida a Cia. da Revista como um dos grupos mais inventivos do teatro brasileiro, fechando sua trilogia “Conexão São Paulo-Pernambuco” com ousadia e excelência artística. Ao transpor a poesia seca de João Cabral para um musical pós-dramático urbano, o espetáculo não apenas homenageia o escritor, mas reinventa sua obra como um manifesto contemporâneo sobre migração, identidade e resistência.

Com direção visionária de Kleber Montanheiro, performances impactantes do elenco e uma concepção técnica impecável, a peça prova que o teatro musical pode ser tão político quanto poético, tão experimental quanto emocionante. Mais do que um marco nos 25 anos da companhia, João é um convite urgente à reflexão sobre o Brasil que se desloca, se transforma e, apesar de tudo, insiste em viver. Um espetáculo que ficará na memória, justamente aquilo que a cidade, criticada na trama, tanto insiste em apagar.

Related posts

“Dois Patrões”: Giovani Tozi transporta texto clássico da Commedia dell’Arte para o submundo do bicho

“Blasted”, texto de Sarah Kane, continua impactante ao retratar o que a sociedade civilizada, tão cheia de si, finge não ver

“O riso acessa camadas muito profundas do ser humano”, diz Aline Moreno sobre a celebração de uma década de atuação dos Palhaços Sem Fronteiras Brasil