Vereadora de extrema-direita pede retirada de “Capitães de Areia” de Jorge Amado das escolas

A vereadora Jessica Limone (PL) partido de extrema-direita, atuante no município de Itapoá (SC) durante uma sessão na câmara, lançou intensas críticas a um dos livros mais conhecidos de Jorge amado, o “Capitães de Areia” (1937).

As críticas ao livro foram feitas a partir da inclusão da obra no currículo das escolas brasileiras, o que, para ela, representa uma tentativa política de “marginalização” das crianças. No romance, acompanhamos a rotina de crianças à margem da sociedade.

A vereadora declarou que:

“Está sendo trabalhado e discutido no ensino fundamental, para alunos de 7º e 8º ano, entre 12 e 13 anos, esse livro. Se os senhores procurarem em livrarias e sites, ele tem uma classificação indicativa de 18 anos. Porém, a classificação dele, divulgada e oficial, é de 14 anos”.

Seu argumento é fundamentado na seguinte premissa:

“É uma maneira que o governo federal tem – que a esquerda tem – de introduzir a literatura brasileira. […]. O que eu quero dizer com isso é que esse livro promove a marginalização infantil, é uma maneira pela qual a esquerda está infiltrando esse livro nas escolas”.

Ela demonstra preocupação com o conteúdo exposto no livro, acusando o atual governo federal de infiltrar “Capitães de Areia” (1937) como se fosse uma mácula no sistema educacional do país.

Para completar sua fala, a vereadora Jessica Limone (PL) fez um apelo à Secretaria de Educação do município, solicitando a retirada da obra “Capitães de Areia” da grade curricular das escolas de ensino fundamental.

Não satisfeita e comprovando seu viés ideológico, a vereadora citou o autor de “Capitães de Areia”(1937), Jorge Amado como “comunista, famoso, conhecido, inclusive, foi deputado federal e teve o seu mandato cassado”.

“Capitães de Areia” foi lançado na fogueira em 1937

Em novembro de 1937 foi feita uma grande fogueira na Cidade Baixa de Salvador, próximo à localidade em que hoje se encontram o Elevador e o Mercado Modelo. A fogueira foi alimentada por livros que simboliza uma suposta “propaganda do credo vermelho”.

Foram cerca de 1,8 mil livros de literatura consideradas simpatizantes do comunismo, sendo que mais de 90% das obras queimadas eram de autoria de Jorge Amado. Destes, 808 eram exemplares de “Capitães de Areia”.

A obra “Capitães de Areia”, é marcadamente uma crítica social e por isso foi alvo da Intentona Comunista, que perseguiu não somente os membros do Partido Comunista Brasileiro (PCB), bem como intelectuais, que segundo o governo, estavam associados à ideologia de Moscou (capital da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).

“Capitães de Areia” e sua crítica social

Começou a ler a crítica e ainda não leu “Capitães de Areia”? Aqui vai uma sinopse desse livro que é um dos grandes clássicos da literatura brasileira. 

Publicado em 1937, “Capitães de Areia”, conta a história de Pedro Bala, Professor, Gato, Sem Pernas e Boa Vida, crianças abandonadas que crescem nas ruas de Salvador e vivem em uma comunidade que se estabeleceu no Trapiche. 

As crianças praticam assaltos e se envolvem em diversas confusões, na mesma medida em que são perseguidas constantemente pela polícia. Com a chegada de Dora e seu irmão Zé Fuinha, os meninos ficam excitados com a presença de uma menina. Dora desperta em Pedro Bala e nos outros garotos um afeto inesperado.

Uma história que nos move e nos incomoda pela sua riqueza de detalhes e por sua contundente crítica social. Nos faz refletir sobre as crianças abandonadas à própria sorte que ainda hoje são perseguidas pela cidade de Salvador e pelo Brasil afora. Uma crítica que pode ser percebida pelo leitor atento, mesmo não sendo “comunista”.

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