Autor: Juan Carlos Onetti
Tradução: Luiz Reyes Gil
Editora: Planeta
Ano: 2005
Páginas: 318
“Assim, imaginando que invento tudo o que escrevo, a coisas adquirem um sentido, inexplicável, é certo, mas do qual só poderia duvidar se duvidasse simultaneamente da minha própria existência.”
Juan Carlos Onetti
Como fazer um livro falar? Talvez este seja a questão, quiçá dilema, mais urgente que vivem aqueles que optam pelas trilhas da literatura. A página em branco, aquela que diz tanto que chega a sufocar, oferece todos os caminhos possíveis para as palavras que se acumulam nas cabeças e insistem tanto em se colar ao papel. Em Junta-Cadáveres, Juan Carlos Onetti encarou esta pergunta de frente: perante uma cidade que urge de progresso e desejo de um lado e de um pensamento conservador e moralista de outro, o autor optou por seguir uma trilha cuidadosa, como se dirigisse com cautela em meio a tempestade, para mais do que fazer uma batalha entre estes dois pensamentos, pudesse compor uma metafísica, uma transcendência de um dilema da vida – que repete o da literatura – como fazer a vida falar?
Não existe o mundo, não há Santa Maria. Tudo o que você puder ver fora aqui é mentira, tudo o que você tocar. E até o que pensar fora aqui e o que pensar estando aqui e que não tenha relação comigo. Com isto. Com você e comigo. Com este quarto.
Junta-Cadáveres (1964), de Juan Carlos Onetti, conta a história de Larsen, conhecido com Junta-Cadáveres, cuja profissão é reunir prostitutas em fim de carreira e auxiliá-las a trabalhar e se sustentar no fim de suas vidas. Seu sonho é montar um prostíbulo na cidade de Santa Maria, ao lado da prostituta e companheira Maria Bonita. Eis que, após longos anos de batalhas políticas, a autorização do estado vem e Junta realiza o sonho. Embora, nos primeiros dias, o que se vê diante da criação do prostíbulo seja o desconfortável silêncio da cidade, que aparece quase desabitada, por exemplo, com a chegada das prostitutas, aos poucos, o que vai se esgarçando é uma lenta, porém brutal resistência das camadas conservadoras da cidade, começando pela igreja com as homilias do padre aos domingos, passando pelos grandes empresários e poderosos que veem ali um ponto de perdição dos mais jovens, até as cartas anônimas da associação das esposas que revelam, com detalhes, quem frequentou e quando o bordel, ameaçando destruir casamentos arranjados e famílias de renome.
É interessante, por exemplo, a visão do próprio Junta em relação à sua profissão, refletindo, inclusive, sobre a ideia de pecado:
Junta chega a descobrir que o que torna pecaminoso é sua inutilidade, aquela perniciosa necessidade de bastar-se a si mesmo, de não derivar; sua falta de necessidade de transcender e de depositar no mundo, visíveis para os demais, palpáveis, coisas, cifras, satisfações que possam ser compartilhadas.
Além disso, Onetti não se priva de explorar a cidade através de outros caminhos. O autor alterna o ponto de vista narrativo do prostíbulo propriamente dito para contar a história de Jorge, um rapaz de 16 anos que frequenta a casa de Julita, uma recém viúva da irmã do rapaz que, enlouquecida ou não, recebe o menino e provoca nele os primeiros desejos sexuais de uma adolescência. Assim, temos também a visão do rapaz, herdeiro de um grande jornal local, o El Liberal, e toda a sua família de poderosos tendo de lidar com a morte de Federico, ex-marido de Julita, o alcoolismo de Marco e as relações de classe entre a família e o restante da cidade. Aos poucos, as duas narrativas começam a se entrecruzar em uma latência entre desejo, violência, força, moral e conservadorismo em uma verdadeira batalha no corpo e mente de todos os membros de Santa Maria, cidade recorrente nas obras de Onetti. No prefácio do livro, escrito por Francisco J. C. Dantas, o autor afirma:
“É impressionante a liberdade com que Jorge Malabia flexiona o foco narrativo, não de maneira graciosa, mas orgânica, propiciando à sua escrita aquela dose de aparente irregularidade que leva o leitor a se sentir dentro de um mundo natural que está se movimentando em secreta turbulência, e não diante de um esquema rígido e ortodoxo. A par disso, os episódios se cruzam e alternam no tempo e na ordem sequencial, de tal forma que podem levar o leitor desavisado a pensar numa dimensão aleatória.”
Entretanto, o que se vê é o contrário: uma escrita lenta, mas construída com a delicadeza e singeleza de detalhes necessárias para evita arroubos políticos mais óbvios e marcados com é comum, por exemplo, na literatura de um Mario Benedetti. Juan Carlos Onetti, ao contrário, parece procurar sua literatura nas entranhas das narrativas, na batalha entre a língua e a linguagem, nas expressões de suas figuras e nos universos que elas compartilham com todos nós. Santa Maria é lugar nenhum, mas pode ser qualquer lugar, inclusive um dentro da gente.